sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

RETRATO DE UM DIA SÓ

A leve garoa deste inverno dispersa o confuso rumor da vida em movimento nas ruas. O tempo sentado à beira do dia, a tudo observa. Com seu sopro, seu fuso, sua adaga, entrecorta os caminhos de cada um, apontando a feitura de anos atrás de outros anos com dias como o de hoje. Desse jeito assim, em manhãs que hesitam entre chover ou só nublar. Manhãs minhas e dos outros, dentro da maré que leva e traz o mar manso ou revolto às praias do nosso sentir. E logo depois chegam as noites fora dos calendários. Aquelas que ensinam os mistérios da vida e que se demoram tanto, que o dormir e o acordar podem custar séculos. Séculos de memórias.

Eu e meus pensamentos percorremos meio mundo da cidade esta manhã. Quero guardar um panorama dos acasos de um dia só. Procuro inspiração nas paredes das casas que me viram passar. Mas foi na pequena praça ao lado do semáforo vermelho, que pintei este retrato. A pracinha faz um bem-casado com a igreja da paróquia. Ensombrado por árvores de maior porte cercadas de bancos de concreto, o largo oferece um oásis convidativo ao lazer. Borbulha o trânsito de pessoas por ali. Enquanto o congestionamento me segura em vários ciclos do farol, observo a paisagem humana ao redor.

Meu olhar se planta com uma carga de ternura sobre um casal de idosos que caminha de mãos dadas, carregando pencas de bravuras nas histórias para manter o laço até à velhice. A criança robusta tem o rubro nas bochechas pelo esforço em suster a coleira do cãozinho no encalço de um pombo mais que abusado bicando no chão. O barulho de um grupo de jovens irrompendo praça adentro derrama adrenalina na trilha de caminhada. Num banco mais distante, o jornal aberto para leitura, recebe o disparo de uma bola de tênis do garotinho de cabelos encaracolados afoito em ganhar a atenção do distraído pai. Nessa mesma hora, arrastando o peso dos anos nos pés, dois aposentados animados portam um tabuleiro à procura de um canto para o habitual jogo de xadrez. Mais afastado, os dois jovens namorados passeiam devagar, levando o sol dentro de si. Ao lado, na borda da jardineira de Ixoras, as mãos trêmulas da velha senhora perambulam por fotos antigas a lhe trazer a comoção do passado. Sob a sombra do imenso Flamboaiã ao centro, uma mãe em idade de primavera se aplica extremosa em ajustar o andar trôpego do filho deficiente, como se cuidasse de uma flor em redoma. E o efeito colateral do amor cresce na pele de quantos virem aquele quadro.

No outro lado da rua corre a tênue luz dum mundo já sem mundos, para o moleque entregue ao fundo abandono e tão consumido pela fome. Recebe com quatro mãos a latinha com sobra de refrigerante de um estudante que passa com fone de ouvido e andar ritmado pela música. Espichando o olhar comprido de solidão, dá ouvidos ao coração e ri das travessuras das crianças na praça. E enquanto recordações soturnas alimentam as suas horas nos ponteiros do relógio da capela, espera a sorte lhe atirar um bocado qualquer de comida a lhe sustentar os ossos naquele dia. Quem lhe dera que tanto sofrer passasse, ou não passando, sarasse...

Os hábitos urbanos da cidade grande embrutecem a percepção e judiam dos nossos sentidos, mas penso que o ser humano, onde quer que se encontre, tem uma enorme necessidade de se relacionar e ser feliz. Cada um, do seu jeito, vive e se relaciona da forma que aprendeu. Desde cedo, despeja no trato quotidiano habilidades de convivência incorporadas, ainda que o silêncio seja todo assunto que tenha para contar.

As relações são a trama da vida, onde o aprender a amar transforma o viver em uma arte. Amar e relacionar-se têm o mesmo sentido. Somos desenhados para nos conectarmos, marchamos em contínuo exercício de enviarmos e recebermos mensagens em relações presenciais e virtuais com o semelhante. Somos inseparáveis do Universo e vivemos numa rede de relações que inclui tudo, não importando nossa anuência ou ciência disso. Não existimos separadamente dos demais, nossos sentimentos próprios se misturam às realidades alheias. Há um elo entre nós próprios e todas as almas.

Quando nossa alma interage com a nossa realidade em perfeita consciência e harmonia, o amor também se expande e a tudo abarca. Requisito necessário é o amor a quem persegue a felicidade.

Comunicar-se praticando a empatia, colocar-se no lugar do outro   no meu pensar – garante o preparo para a ciência e arte do relacionamento e para a experiência de se conectar. Como o nome por dentro das fotografias dos personagens deste conto, soletrando os números dos encontros e desencontros vividos.

O verde do sinal me chama de volta ao trânsito. O aroma desta manhã cinzenta deu acabamento à minha obra. Sigo pela via lentamente, ajustando minha biografia e guardando o que de bom me trouxeram as relações, sem catalogar os reveses, porque seria como arrancar penas a pássaros feridos. Meus passos estão de visita neste cenário, mas têm o desígnio de me ascender ao conhecimento pleno do meu deserto onde cultivo canteiros de mudas das lições que aprendo.

É preciso buscar ser feliz para descobrir em que medida o amor é dosado, para que a vida não seja em vão. No retrato deste dia, há sonhos, sorrisos, silêncios, coração. E enquanto houver coração, o amor terá abrigo.

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CRÔNICA 53

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7 comentários:

  1. Talentosa escritora, após a atenta leitura do seu "Retrato de um dia só", refleti e descobri que nunca lancei um olhar ao redor para captar o que estava acontecendo com as pessoas em volta. Na verdade, mantenho minha atenção voltada para a minha pauta do dia, para que nenhuma obrigação deixe de ser cumprida e, ainda assim, 30% delas são negligenciadas. Somente uma artista como você poderia, com um breve olhar no cenário cotidiano captar tanta ação, umas sutis, outras apaixonadas. Sou um admirador confesso do seu talento e aprendi com seu conto que em meio à correria, é preciso parar pelo menos um pouco para observar o que a vida está oferecendo ao redor e captar somente o que há de bom! O que é ruim, deve ser descartado. Assim, é possível ser feliz. Obrigado por mais uma sublime lição. Espero que muitas pessoas parem um pouco, entrem no contos de acasos e observem e aprendem a preciosa mensagem que você passou, ou que os anjos, a serviço de Deus, passaram por meio de suas mãos. Mais uma vez obrigado e até o próximo conto. Parabéns!

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  2. Todos os dias nas ruas vemos pessoas. Nem todos se percebem. Acredito também que todos nós estamos um pouco cansados, de tudo.
    Você conseguir nos passar um cenário real, mas ao mesmo tempo nostálgico. Muito emocionante, ate parece com um poema de um escritor Maranhense que não vem à memória que diz: Às vezes paro numa esquina do tempo e deixo o pensamento visita ao passado. E como ele você também deixou o pensamento tomar conta e observou coisas que a correria da vida não nos deixar observar. Parabéns foi um dos melhores contos que escreveu.

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  3. Sua capacidade de extrair as peculidaridades das relacoes humanas e, ainda, transforma-las em arte e' divina! Voce tem o dom!
    O conto belissimo nos sacode para percebermos o mundo ao nosso redor, para que possamos refletir sobre ele e agir com base em nossas reflexoes. Maravilhoso!
    Seus contos sao tambem uma forma de admirar voce, vez que e' evidente a expressao do seu interior em cada um deles. Nao se trata apenas de criatividade, mas de sinceridade com os proprios sentimentos...Parabens pelo conto e por este talento que tanto nos edifica.

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  4. Amiga Regina,

    Depois de um tempão sem condições de comentar essas pérolas que você brinda nossas telinhas, quero te dizer que sempre fui amante de cada uma das letrinhas que você faz compor seus artigos.

    Não poderia ser diferente com este. Você continua me impressionando com sua capacidade em nos transportar para onde quiser, com o poder de suas palavras e com a enebriante poesia que desenha em cada poema.
    Adorei o cenário que você pintou com a sua aquarela terna, doce e romântica. Verdade que tudo o que nos envolve interfere nos nossos momentos de forma mais tácita ou simplesmente servindo de pano de fundo. Quantas coisas, pessoas, atitudes, cores, luzes passam despercebidas nas nossas horas e nos nossos momentos importantes! Você tem esse dom divino de valorizar um semblante, uma atitude, um encanto e até mergulhar nas mentes “dos aposentados à procura de um lugar para assentar o tabuleiro de xadrez”... Você é realmente fantástica, minha amiga. Saiba que passarei a dar mais valor a cada detalhe ao meu redor. Esses detalhes, agora já sei, são explicações poéticas para cada fatia de vida que Deus nos presenteia.

    Obrigada, amiga! Hoje ganhei um lindo presente de Ano Novo!
    Beijos

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  5. Linda Regina!

    Lindo seu conto, linda a visao, linda a emocao que colocas de maneira tao suave que soa pra nos como um pedido de favor, quando na verdade nos fazes um AMOR, com tantas colocacoes de afeto, surpresa,delicadesa e ate uma pitada de aventura.Parabens.
    Bjs.

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  6. Ola Regina!

    Quanta inspiracao....
    Cada vez que visito seu blog, minh'alma se enche de encantos, sobre coisas tao simples e tao presentes no nosso dia a dia.
    E importante que nosso olhar se espelhe no seu....mais aberto...mais humano e atento a um mundo tao repleto de informacoes e de vidas tao diferentes mas tambem tao singulares.
    Voce e 10. Parabens

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  7. Em primeiro lugar, é um prazer imenso ter novidades para ler no seu tão lindo blog. Como sempre, transbordando bom gosto e poesia. Parabéns pelo texto, minha mãe querida. A qualidade da construção e a arte exuberante são marcas da sua caneta. Continue nos brindando com textos ricos e belos como este. Você provou que o autorretrato do poeta não precisa ser denso e enfadonho, mas pode ser leve, completo e interessante. Espero ansiosamente pelo próximo conto. Milhões de beijos.

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REGINAFalcão