quinta-feira, 5 de março de 2009

UMA HISTÓRIA DE AMOR


Duas coisas me deixaram forte lembrança da Argentina: o tango e... as bananas! Aprendi, depressa, que o tango é o ritmo na dança e na música que corre nas veias dos argentinos desde a concepção, e que também, inebria qualquer visitante. Na dança, a destreza dos movimentos executados com precisão artística, carregados de sensualidade, leva a platéia a levitar. Na música, quase sempre, a letra expressa um drama interpretado com viva paixão por tenores que falam aos sentimentos dos ouvintes, roubando, não raro, além dos aplausos, uma lágrima ou um suspiro. E as bananas... tão doces, macias e suculentas que sugerem resultado de fórmula secreta da Natureza, exclusiva daquele solo. Só conheci um tipo, sempre igual, a me fazer querer sempre mais: robusta, casca verde-dourado, com aroma acentuado e convidativo e um sabor de manjar.

Voltava eu da caminhada até à frutería com minha preciosa carga de 10 bananas, adquiridas a várias quadras do hotel. Na calçada larga e arborizada, uma voz de timbre agradável apregoou em espanhol: “Tres pesos para una historia de amor”. Olhei na direção do anunciante, sem muito interesse, porém, daí em diante, até o fim deste conto, fiquei refém do que ali se passou.

Era um homem de postura empertigada, tentando resistir ao peso dos anos. O sol já lhe entardecera a pele. Tinha o tom do granizo nos cabelos e as cores da cidade inteira nas íris dos olhos. Portava modos gentis, mas com os ombros pesados de memórias guardava um passado nas retinas, acompanhado de silêncios inquisidores... Esforçava-se por ocultar uma solidão indefinível que implacavelmente lhe pintava no rosto uma determinada inquietude.

Segurando com desvelo o violino e a haste, alisou o velho casaco afiando as mãos, posicionou-se com certa pompa e extraiu daquele instrumento um dos mais belos tangos que já passaram pelos meus ouvidos. Ali, ao ar livre, eu pude presenciar a execução magistral dessa arte por alguns minutos, a lavar a alma de todos os passantes que se quedavam mudos, em respeitoso deslumbramento.

Alguém perguntou: “¿Dónde está la historia de amor?” Ele respondeu acentuando todos os sulcos da face com um sorriso engasgado: “Amigos, voy ahora a contar”. Descansou o violino junto ao tronco da grande árvore que lhe garantia sombra, pigarreou duas vezes para conferir a garganta, abriu os braços para a gesticulação teatral e em tom mais baixo, cantou, em solo, a letra da mesma música antes tocada no violino. Vibrato perfeito, afinação irrepreensível, aquela voz alcançava os tons mais altos com tanta efusão, que quando me dei conta, estava exclamando: “Bravo! Bravo!”, como todos os outros que se aproximaram.

A forma apaixonante de cantar deixava o enredo em segundo plano. Mas a letra da música contava, entre metáforas, a história de uma família desfeita porque a jovem mãe falece e deixa a filhinha aos cuidados do pai, que embora devotado, perde a criança certo dia durante um concerto numa praça. O pai segue à procura da pequena por toda a cidade, mesmo passados 16 anos, na certeza de encontrá-la. Terminada a apresentação, a pequena multidão de expectadores, encantada com tão especial exibição, deposita uma chuva de moedas no chapéu e se dispersa.

Tudo aquilo me intrigou: altas doses de talento, cultura e genialidade subaproveitadas na rua, em troca de alguns pesos; pupilas que rutilam o sorriso durante o espetáculo, mas soltam o sal de lágrimas opressoras quando o público se afasta e ninguém mais vê.

Ao me aproximar para entregar os pesos, observei um diminuto desenho no violino. Embora gasto, mostrava o contorno de um coração entalhado com riscos imprecisos e os dizeres com letra infantil: “Juanita ama a papá”. Tudo fez sentido: o drama relatado no canto envolvente era o retrato da vida daquele músico notável, que percorria os diversos pontos da cidade tocando a música conhecida por sua garotinha, na esperança de que ela a ouvisse e a reconhecesse. Por isso, no primeiro estágio da apresentação, o violino se fazia soberano. Depois ele compôs a letra sobre as mesmas notas, narrando o próprio infortúnio, para que, ao cantar, as palavras da narrativa chegassem até ela.

Aí está a história de amor: aquele pai, com a alma em carne viva, peregrina, por 16 anos, com sua bela música à procura da filhinha... Gastou o azul dos olhos a chorá-la, depois se agarrou à esperança e fugiu da própria sombra, com o fardo de um juramento do tamanho do mundo, às costas. No lugar dos ideais, um deserto de dúvidas bem maior que qualquer futuro. Corroeu os ossos do corpo ao tentar carregar um coração pesado demais, onde há muito tempo habita a geada do inverno. Diante de tudo isso, instintivamente, entreguei o que portava de maior valor naquele momento: as valiosas bananas, todas.

Pressentindo que eu havia decifrado o seu segredo, aquele artista com feições sofridas, espremeu o coração entre as mãos para retirar do bolso interno do surrado sobretudo uma foto desbotada, com bordas fragmentadas, marcada por ondulações do tempo que se curva ao peso das horas. Com os olhos marejados de culpa, assentiu que eu tocasse aquela relíquia antiga onde se via uma menininha risonha, entre sete ou oito anos, abraçada a um violino... um violino que ostentava no canto uma marquinha de um coração cravado.

Assim, da parte de dentro do bolso gasto - do lado machucado - abriu a ferida e com o peito calcado por todas as ausências desenhou a sua dor com as cinzas da própria carne. Nada mais consegui falar além de “Buena suerte, Señor, sinceramente”.

No caminho para o hotel, lembrei do quanto somos privilegiados por termos, pertinho de nós, nossos entes queridos, aninhados em nosso convívio, onde todas as estações podem ter flores, calor humano, risos, abraços, beijos, e declarações de alguns nuncas de separação e muitos sempres de amor eterno. Desfrutar da presença e da companhia dos nossos seres amados é um presente da Misericórdia Divina e nossa gratidão por tamanha bênção é, no mínimo, sermos e vivermos, o melhor possível, com todos eles.

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CRÔNICA 12

9 comentários:

  1. Não era pra se esperar diferente mesmo, amiga! Não tenho sequer sombra de erro em afirmar que, a cada conto, você sublima e enfoca carinhosamente o sumo de cada palavra.
    Li por duas vezes. Confesso que meus olhos merejaram não só pela estória, mas pela dolorosa poesia que você descreveu!
    Duas coisas ficaram latejando nos meus devaneios a respeito: Sua delicadeza em atestar a realidade daquele senhor, com a foto, talho no violão e presença perante a expressão enquanto cantava/declamava! O preço que seu coração pagou foram os frutos que tanto adora! Se olharmos ao nosso redor, vemos casos parecidos (e muitos) que para se apropriarem de nossos bens e sentimentos alguns agem teatralmente de forma análoga.
    Outra, se me permite, amiga, foi o parágrafo: “Tudo aquilo me intrigou: altas doses de talento, cultura e genialidade subaproveitadas na rua, em troca de alguns pesos; pupilas que rutilam o sorriso durante o espetáculo, mas soltam o sal de lágrimas opressoras quando o público se afasta e ninguém mais vê.”. Não são, não! Somente o fato de ter ouvido de você e dos outros “Bravo!” certamente satisfez sua necessidade íntima de chegar aos seus corações! Se ele tivesse gravado um CD, não chegaria aonde chegou, pois não teria ouvido um “bravo!” tão espontâneo! Talvez tivesse a paga de algum dinheiro a mais pela venda e/ou exibição, mas nunca teria em suas mãos uns frutos que valeram mais por si-mais-você, do que pelo dinheiro gasto na compra! Adorei o que escreveu! Deus te abençoou com uma rara bateia, que você usa garimpando diamantes em meio aos seixos, estes que são a única coisa que nós conseguimos enxergar! Liiindo... você vê e faz acontecer nos nossos corações! Parabéns, amiga! Você é um verdadeiro presente divino para todas nós, ainda mais por este dia 08 de março! Beijos!

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  2. Prezada escritora, para nós, humildes, mortais e meros leitores, este conto nos tira da realidade com irretorquível arte e nos leva à reflexão acerca da grande dádiva de Deus que é a sorte do convívio familiar com os entes que tanto amamos. Contudo, a forma com que foi escrito causa outro efeito: o de nos fazer sentir vibrante emoção que chega a nos enternecer a cada segundo da narrativa. Quero dizer que, ao ler, não apenas me senti vivenciando o momento como que se com você estivesse lá, mas fui tomado de inevitável pesar pelo infortúnio do músico. Sem mais palavras, vou ficando por aqui, apenas admirando suas preciosas linhas. Sendo redundante, meus sinceros parabéns.
    Ulysses

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  3. Linda história, Regina!

    Abraços,

    Rosa

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  4. Linguagem nenhuma pode exprimir a dor de uma perda. Seu conto nos mostra amor, ternura e singeleza - um sinal visível do amor de um pai. Suas palavras como sempre nos emocionam. Que o Espírito Santo continue lhe capacitando.

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  5. Não é fàcil perder um ente querido. Meus olhos lacrimejaram com sua História, palavras de amor que sentimos poderosamente em nossos corações. Parabéns, você tem que continuar nos presenteando com seu talento!

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  6. Olá amada, cheguei da aula um pouco triste e de alguma forma encontrei um imenso conforto quando li seu conto, perdi uma pessoa especial a pouco tempo,e desde então, hoje senti uma sensação de paz, de fé e esperança renovada. Que Deus lhe abençoe.

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  7. Confesso que é necessária coragem, que no momento eu não tenho,para ler novamente este post. Quando eu comecei, estava tranquilo,desavisado...em seguida, a história começa a prender a minha atenção, mas não parece estar completa. Até que subtamente começa uma invasão de emoções causada pela empatia com o pobre cancioneiro argentino protagonista do conto. São angústias decorrentes da dor de perder um ente querido, da dúvida, da solidariedade (que nós leitores sentimos), do amor e da tácita poesia da música.

    Pois bem, eu saí dessa leitura como se tivesse saído de um forte vendaval veranil.

    Aviso-vos: cuidado como risco de fortes emoções.

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  8. Seus contos depertam a humanidade dos leitores!

    Parabéns pelo blog.

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  9. G, ainda não inventaram no mundo medidores de decepção, de sentimento ou de dor, principalmente quando esta última emerge da perda de um filho. Sem adentrar-se aos inúmeros casos reais que ocorrem diariamete, não se pode deixar de se atentar para o amor de um pai por seu filho, notadamente, quando este se torna seu mascote. A singeleza de seu conto, permite aos seus leitores, a uma relexão em face da realidade vivida em nosso país. Não se pode, contudo, deixar de enaltece-la por mais uma vez tocar no coração de seus admiradores. Bravo P.

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Aguardo o seu retorno no próximo conto.
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REGINAFalcão