segunda-feira, 17 de novembro de 2008

SILENCIOSA LIÇÃO


Trânsito congestionado, buzinas impacientes, hora do rush no final da tarde. Para agravar o quadro, uma chuva fina caía sempre igual, alimentando o molhado da pista, exigindo mais atenção dos motoristas. 
Como o engarrafamento se estendesse por tempo longo, resolvi sublimar o estresse aumentando o volume da música. Decidida a enfrentar, sem tensão, o tempo de espera, recostei a cabeça no banco e voltei os olhos para o lado, distraidamente. Foi quando presenciei uma cena - talvez banal para muitos - mas inesquecível para o resto da minha vida.

Uma garotinha quase adolescente caminhava devagar junto ao meio-fio com um pacote na mão, provavelmente produto comprado na mercearia próxima. Poucos passos depois de passar pelo meu carro, parou, olhou atentamente para determinado ponto na sarjeta, passou a sombrinha para a mão ocupada com as compras, prendeu a barra do vestido nos joelhos e abaixou-se visivelmente concentrada.

Fiquei acompanhando a sequência das cenas e nesse instante, estiquei o corpo para visualizar melhor o que se passava. Não queria perder um segundo daquela situação curiosa. Então descobri o motivo, o objeto da atenção da garota: um gato de cor clara, muito pequeno, talvez recém-nascido, agonizava na enxurrada, preso num galho seco, recebendo força e volume de água insuportável para o seu minúsculo tamanho. Cansado, dava mostras de sucumbir ao peso do correr das águas sobre sua cabeça. Foi quando a heroína dessa história, com toda a simplicidade, enfiou a mão livre no córrego, segurou o gatinho pelo couro da cabeça e o depositou a salvo na calçada, frente ao rego. Sacudiu a mão, aguardou por alguns segundos como se certificando de que o bichinho respirava e seguiu adiante, tranquila, na sua marcha.

O trânsito retomou o curso e não sei se o gato sobreviveu, também não entro no mérito dos riscos de contaminação pelo ato da pequena, mas fiquei emocionada de ver o gesto desprendido de um ser humano tão jovem, com valores já tão definidos e com predicados tão nobres. Por essa e outras razões é que eu invisto crédito na redenção da raça humana.
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CRÔNICA 2

6 comentários:

  1. Eu sempre acho que as grandiosas lições das nossas vidas vêm de pessoas simples ou dos pequeninos em tamanho, mas gigantes de coração como essa mocinha.

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  2. Socorro
    Quem dera que as pessoas vivessem esse momento e lembrassem que há atrativo espiritual num simples gesto de bondade. E você detalhou muito bem esse instante maravilhoso, onde através de suas palavras podemos sentir a emoção. À medida que a bondade se desenvolve em nossas vidas tornamo-nos mais compreensivos. Parabéns, continue escrevendo. Que a graça de Deus esteja sempre com você.

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  3. "Mulher virtuosa quem a achará? O seu valor muito excede o de finas jóias. Fala com sabedoria e a instrução da bondade está na sua língua. Muitas mulheres procedem virtuosamente, mas tu a todas sobrepujas". Prov. 31 - Cap.10,26 e 29
    Faço deste provérbio as minhas palavras, pois não as tenho para expressar a minha admiração. Embora eu a conheça pouco, percebo o quanto és inteligente, sensível e maravilhosa. Realmente as nossas vidas tem se tornado tão corridas que não permitimos ao menos que atitude simples como daquela jovem nos ensine uma lição de nobreza. Eu acredito que Deus nos permite presenciarmos situações na vida para tirarmos lições delas, mas infelizmente estamos sempre tão ocupados que deixamos de ver que nas coisas mais simples estão as maiores lições.

    Com muito carinho!
    Elisa

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  4. Poste uma câmera e estarás pronta a testemunhar, ao longo das entrecortadas ruas dessa cidade, as mais diversas e variadas cenas do cotidiano, das mais belas às mais chocantes. Não só os seres humanos mas também os animais, em determinados momentos, superam-se por suas coragem, ao praticarem atos de bravura ou de caridade que só Deus conhece. Sucesso.

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  5. Tenho muito a agradecer pela vinda de todos vocês a este espaço, onde compartilhamos nossas impressões.

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