sábado, 4 de abril de 2009

NOSSA LÍNGUA SEMPRE VIVA


A última flor do Lácio, inculta e bela, tão decantada no soneto de Olavo Bilac, ganha novos contornos com o Acordo Ortográfico que estabelece uma grafia única a ser utilizada por todos os países de língua oficial portuguesa. Essa bela flor de muitas pétalas - a língua de Camões - ao transpor séculos, atravessar oceanos e continentes, também tornou-se na língua de Machado de Assis, Alda do Espírito Santo, Carlos Drummond de Andrade, Agostinho Neto, Chico Buarque, Baltazar Lopes, Cecília Meireles, Luís Cardoso, Vinícius de Morais, José Craveirinha, Adulai Silá... e outros monstros sagrados erigidos no Brasil e em territórios além-mar, onde a flor de muitas cores, em seu lastro de riqueza, é senhora e rainha.

E é essa mesma língua majestosa, com seu vero manto régio, que compõe nossas ideias, estrutura o nosso raciocínio, formula o nosso pensamento, identifica os nossos sentimentos, registra nossas experiências. E, principalmente, é o elemento fundamental na comunicação com o nosso semelhante.

Guardo um sentimento patriótico pela Língua Portuguesa - a nossa língua sempre viva. O Português é o meu torrão natal, a minha pátria, por excelência. Tenho imenso prezo por ele, uma grande paixão que arrisco chamar de... veneração. Considero um desafio crescente entendê-lo, dissecá-lo, devorá-lo, ruminá-lo... para depois esculpi-lo em versos de um poema sem rimas com o meu ADN.  Gosto de dançar em frases, morder as palavras, brincar com as sílabas, afagar as expressões que criam ritmos verbais; tenho inexplicável prazer na entrega de mim mesma aos devaneios da sintaxe; delicio-me criando movimento aos caminhos labirínticos da morfologia.

Vislumbro a escrita como a materialização da fala, a extensão dos gestos, o fluir da emoção no papel. Vejo na expressão escrita a possibilidade de tradução pessoal da arte, de socialização das ideias. Muitas vezes me flagro escrevendo sem querer pensar, sem buscar a lógica, simplesmente deixando as palavras psicografarem minha alma desnuda. Estremeço como um galho verde ao vento quando mergulho em páginas que acorrentam minha atenção, me turbam de instinto, me inundam de assombros pela engenharia sintática e me arrebatam para o puro prazer de uma sinfonia lingüística. 

Essa atração fatal vem de longa data. Lembro, com detalhes mínimos, de uma cena incomum para os meus sete anos, na minha casa: um volume mais pesado e quase maior que meu corpo físico com o título “Titãs da Literatura” sobre as minhas pernas, por horas seguidas. A emoção intensa pela leitura da biografia e obras de cada um dos imortais me seduzia ao ponto de me abstrair de todo o resto. Tornou-se um vício, uma dependência sem cura. Mas naquela época, crianças eram submetidas a regras e horários de rígido cumprimento; assim, à noite, as luzes se apagavam pouco depois do escurecer e as sombras dormiam mais cedo. Ávida para continuar as descobertas, preparei um plano para dar prosseguimento aos meus intentos, sem que meus pais percebessem. Na primeira oportunidade favorável à minha terceira intenção, montei vários andaimes com um baú, uma cadeira, uma caixa e outros “degraus” para alcançar, com as pontas dos pés, o arsenal de objetos secretos do meu pai, rigorosamente armazenados fora do alcance de crianças.  Com o cabo do guarda-chuva e muito malabarismo, consegui resgatar a enorme lanterna de pesca que ele guardava longe da minha curiosidade. Abasteci a antiga peça com as pilhas do rádio e esperei chegar a noite. Depois de toda a família recolhida, eu arrastava o pesado livro de debaixo do travesseiro e ligava a lanterna, sob o cortinado. Lia sofregamente durante toda a madrugada e pela manhã exibia, contra a minha vontade, a aparência, a postura e a reação de um zumbi. Foram poucos e memoráveis dias, convivendo em segredo com as feras do nosso glorioso idioma. Mas o rádio, sem as pilhas, denunciou minha traquinagem e não demorou nadinha para o meu delito ser descoberto, gerando o confisco do meu tesouro por questões de “saúde pública”. Saudade, quase em prantos, daquele português clássico, escorreito, repleto de musicalidade para a minha alma. 

Nos dias modernos, observo, com indisfarçável desgosto, o fenômeno da invasão irrefreável de estrangeirismos e outros vícios contra a pureza da nossa ferida língua. Os próprios tecnocratas, em suas manifestações públicas, deram início ao aportuguesamento de inúmeros termos oriundos do Inglês. A Informática surge e traz um avanço mordaz com o aportuguesamento de sua nomenclatura. Na mesma trilha, as agências e outras empresas de propaganda abusam do uso indiscriminado de palavras estrangeiras nos veículos de publicidade.  Na Internet, testemunho, diariamente, crimes de assassinato à boa escrita. O desprezo pelo bom uso da língua é a erva daninha que prolifera os efeitos nocivos de incutir na população o agasalho dos solecismos e barbarismos que golpeiam a fala e a escrita dos nossos dias.  Urge, pela tomada de consciência, uma reação para a defesa da nossa língua vernácula. Um clamor irresignado contra essas deformações foi lançado, com muita propriedade, na crônica "Manaus, Pouco Original" da poetisa amazonense Rosa Clement. É preciso ter em mente que corremos um risco escancarado de descaracterização da língua, pois os abusos dos estrangeirismos descaracterizadores vão contaminando e fragilizando a última e indefesa flor do Lácio. 

Apossar-se cada vez mais, cuidar e até mesmo cultuar o patrimônio lingüístico é muito mais que estender-se, ampliar-se, como filho de uma Nação; é muito mais que preservar a identidade nacional; é, antes de tudo, prolongar as possibilidades de se falar, de se conhecer, e portanto, de descobrir condições de aproximar-se dos outros e melhor entendê-los.

Guardo, ainda, um sentimento oculto de pesar, não por quem se exprime em português incorreto, ou por quem não conhece as regras de ortografia, nem por quem escreve em linguagem simplificada, mas sim, pela página mal escrita com um familiar, pela ortografia danosa do mau exemplo, pela linguagem que fere fundo e maltrata o espírito.  Tenho pesar por quando se podia falar de doces verdades ou ditosas saudades, mas matam-se tais palavras no céu da boca. Ou quando se espera a vida inteira por uma palavra de amor presa numa garganta prestes a ser dita. 

Acredito, com todas as letras, que a língua é um recurso deixado pelo Primeiro Autor para a comunicação e interação entre os humanos - Sua mais elaborada criação - no Planeta Terra. Assim, dado o curto período do uso e desfrute dessa riqueza de origem divina, nada é melhor que amanhecermos para a vida com a prosa, entardecermos em versos e anoitecermos abraçados à poesia.

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CRÔNICA 14

8 comentários:

  1. LINDO!!!! GENIAL... Já vi inúmeros textos referentes à riqueza da língua portuguesa, mas, sem dúvida, não me recordo de outro mais lindo do que o seu porque não encerra sua mensagem no reino do vernáculo, mas vai além, instiga a usá-lo em prol da verbalização do amor. Assim, simples, direto e rico. GENIAL... Parabéns!! E o próximo conto...Quando vem? Vai ser sobre o quê? Mal posso esperar...

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  2. Pois tá. Bom seria se um pequeno percentual de jovens alunos de nossas sofridas escolas, limitassem pelo menos alguns minutos de suas rotnas diária à leitura. Por certo, não estariamos sendo atroplelados por tantas aberrações com o uso de nossa lingua pátria tão bela e tão mal empregada.. Belo texto. Cada vez mais, vc nos surpreende. P

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  3. Amiga Regina,
    Pela primeira vez, me recuso a tecer comentários sobre o conteúdo desta sua prosa. Sabe por que? Ela por si só tem vida própria e não nos sujeita a críticas, complementos, comentários. etc. Não canso de dizer (ou escrever) que você se supera a cada minuto que saboreia sua vida, atestando claramente no que escreve!
    Não me atrevo a expressar que não me preocupo com a nossa língua-mãe! Portugal mesmo está em polvorosa por causa das adequações ortográficas, pois centenas de anos engessaram palavras e sentimentos esculpidos nos contornos de suas letras... Agora, algo já não é mais daquele nosso povo quase milenar. Estão, pior ainda, preocupadíssimos com o esvaziamento da “cepa lusitana”, abrindo facilitadores para nacionalização de descendentes até 2. grau de portugueses. Dizem eles: Não podemos perder nossa “cepa” pela avalanche da cultura (veja-se aí também os estrangeirismos) européia globalizada.
    Um articulista da Gazeta de Lisboa (recebo periodicamente) afirmou que “se não tínhamos mais condições culturais de recomendar Os Luzíadas aos nossos filhos, o que haverá quando esta geração tiver suas comunicações tão desagregadas dos épicos! Pra onde caminhará nossa cultura de que temos tanto orgulho?”
    Sabe, amiga, que se mude uma letra, um acento, um trema ou um hífem pela reforma ortográfica, ainda assim dói pelo histórico, mas imploro ao Criador para que não chegue reforma gramatical! Daí, eu veria esvaído grande parte do conteúdo poético e sentimental que alguns iluminados ainda carregam nas veias – dentre êles, eu a classifico num dos melhores lugares do pódium. Só ficarei muito triste quando alguém não conseguir mais expressar jóias como “as luzes se apagavam pouco depois do escurecer e as sombras dormiam mais cedo”. Me apaixonei ainda mais pelo seu coração, pois certamente foi ele que escreveu esta maravilha.
    Meus parabéns não são pra você, mas pra nós por termos um dos poucos baloartes que transitam com uma facilidade tão azeitada entre a comunicação acadêmica de sua profissão e a linguagem poética do seu coração. Obrigada Amiga. Você faz a diferença nos nossos dias sempre que escreve assim. Beijos.

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  4. Maravilhoso! comentar sobre nossa lingua portuguesa. O escritor, tem sempre uma posição de compromisso com o seu tempo, com sua sociedade. Escrever é arte e significa tomar posição diante dos valores da vida. Você sempre nos presentiando, citando grandes nomes de nossa literatura. Parabéns! Que Deus continue lhe inspirando

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  5. Poucas vezes eu vi um autor conseguir mostrar com tamanha fidelidade, como voce fez neste conto. Falando sobre a "nossa língua sempre viva", a nossa realidade, onde nossa geração pouco se preocupa com o idioma tão rico como português. Temos assim uma visão desempedida de uma paixão pela cultura. Parabéns, você realmente é talentosa.

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  6. Muito bem lembrado, seu conto me alegra quando lembra a riqueza de nossa língua, mas me entristece quando vejo que o idioma está sendo muito popularizado. Quando você lembra de grandes vultos da nossa literatura, veja que não há mais interesse pela leitura. Sensacional, gostei demais. Deus lhe abençõe

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  7. Parabéns, sua preocupação em zelar por nosso idioma. Sua fidelidade é digna de todos os plausos. Como todos, eu só posso dizer que Deus lhe conserve assim.

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  8. Entendo o descontentamento que vc tem com o que está ocorrendo com a língua portuguesa atualmente. Penso que esse "movimento" seja fruto de uma característica norteadora dos nossos tempos: caos. Para conviver com o caos busca-se praticidade e inovação. Estas tem sido aplicadas pesadamente no vernáculo português. É uma pena, parece ser irreversível... A esperança que resta é que sempre a lingua portuguesa terá oasis de preservação, dos que aprenderam um idioma virtuoso, repassados de geração à geração.

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