sábado, 6 de junho de 2009

NATUREZA VERSUS PROGRESSO


Eu tive contato com a realidade de um embate “Natureza versus Progresso”, faz poucos dias. Da minha janela, eu avisto uma ampla paisagem urbana. Todas as manhãs, dois lotes de terra murados e sem ocupação, próximos ao meu prédio, seguravam alguns minutos do meu tempo me atiçando à contemplação de duas situações distintas e cheias de encantos: num dos terrenos, um riacho com ânsia de grandeza, corre com vigor, lutando contra a maré ruim trazida pelas ações do homem na busca frenética pela paisagem de cimento a qualquer custo; no outro terreno, farto de pedrinhas e gravetos, uma árvore de médio porte foi eleita por um casal de pipiras como o cenário ideal para o acasalamento e a construção do ninho.

Apreciar a manifestação dessas duas amostras de vida nas primeiras horas do dia revigorava o meu bom humor, adoçando o meu ânimo antes da lida diária. Então, acompanhei de perto o desenrolar dos fatos nos dois polos de observação. O igarapezinho já havia sofrido a violência do estrangulamento ao assistir, indefeso, o aterro acompanhado do asfalto tripudiando sobre o seu leito para a passagem de uma avenida. Sequer foi recompensado com uma ponte, teve seu curso aprisionado nas anilhas de um escoadouro. Mas não se intimidou, seguiu em frente e sobreviveu, embora castigado pelo abandono. Suas margens ainda acolhem longas palmeiras de buriti emprestando um ar bucólico ao burburinho da cidade. Densa vegetação marginal estica as palmas e lança sombras protetoras, talvez com a intenção de esconder dos insensíveis olhos humanos a existência do inocente regato. Um pouco de chuva e ele se banha faceiro, rolando espumas leitosas sobre as pequeninas ondas transparentes fazendo chuá.

E no outro espaço, que abriga a árvore-lar das avoantes, vôos curtos e circulares com jeito de ronda denunciavam a guarda de um bem. Ajustei o foco do binóculo para a ramagem da copa protegida, e vi, emocionada, os desajeitados filhotes cobertos de penugens recém-saídos dos ovos. Urgia que crescessem bem rápido e ganhassem os ares, porque aquele berço estava em canto inseguro. A mãe saía cedo à cata do alimento para prover a ninhada e retornava à tardinha para o aconchego com a família e o descanso noturno. Nessa semana, eu ouvi um barulho de motosserra no horário do almoço. Fiquei estarrecida: a árvore foi reduzida a pedacinhos. Grande alvoroço de operários e rapidamente o lugar tomou a configuração de um árido estacionamento para a churrascaria ao lado.

Ao chegar, no fim da tarde, corri direto até a janela, sem fazer escalas, para ver o que se passava. A jovem pipira vinha se aproximando, procurando desesperadamente o ninho desaparecido. Tamanha a angústia que a arrebatava, arriscava-se em cegos voos rasantes, ganhava altura de novo, volteava em espiral, tremulava no ar feito um beija-flor, pousava no fio condutor de eletricidade, virava a cabecinha para todos os lados, para o chão para o céu... emitia um som quase gemido, percorria o ar em volta da árvore ceifada, rastreando, inconformada, o paradeiro dos filhotes. Alucinada com a dor que a acometia pelo horror da perda, quedou-se imóvel sobre o cabo de corrente elétrica, e assim permaneceu, recolhida, muda, ferida... certamente à espera de um milagre.

E o sofrido córrego, nesse mesmo dia, se via agonizando, asfixiado por envenenamento ao aspirar sobra de concreto despejada numa inclinação logo acima do seu curso por uma construtora na edificação de um complexo residencial de luxo. Golfando a espessa massa cinzenta, debatia-se produzindo mais água para tentar neutralizar os efeitos perversos da malvada agressão.

Assistindo quadro tão sinistro, com o peso da sensação de impotência revolvendo as entranhas, eu me perguntava: “O progresso, necessariamente, implica no sacrifício da Natureza?” Para responder a essa pergunta, há que se compor uma reflexão, viajando num retrospecto da história da humanidade até a Inglaterra, desde meados do século XVIII, quando um conjunto de mudanças trouxe o impacto da superação da era agrícola e a suplantação do trabalho humano pela máquina. Assim, a Revolução Industrial, ao dar seu histórico primeiro passo, ampliou os horizontes do homem, rumo ao progresso. As pesquisas científicas se lançaram em campo, o desenvolvimento tecnológico se fez sentir. O homem criava e se aperfeiçoava, voltado febrilmente para o crescimento industrial, comercial, tecnológico e, conseqüentemente, econômico. O enorme manancial de recursos naturais, mercê da fome insaciável da exploração, parecia inesgotável, inextinguível.

O passar dos anos, porém, contrariou as expectativas. O crescimento desordenado da população mundial impunha necessidades humanas cada vez maiores, ilimitadas. A máquina publicitária e as facilidades no mundo comercial estimulavam o consumo. Os intermináveis parques ecológicos, onde predominava a Natureza, davam lugar a gigantescos complexos industriais e a conglomerados urbanos, que surgiam, como num passe de mágica.

Em meio a toda essa euforia dos arrivistas, que – cabe enfatizar – continua em ritmo acelerado, passaram a surgir sequelas, objeto de preocupação e mal-estar às pessoas: notava-se que a Natureza, antes onipresente, sufocava-se ante a expansão do progresso. O homem ficou em estado de alerta: a palavra ECOLOGIA passou a ser declinada em prosa e verso. Especial ênfase foi atribuída à poluição ambiental e sonora, à extinção das espécies, ao desmatamento excessivo. Começava a fazer falta às pessoas, o clima de paz em meio à vida ambiente rica e preservada.

O progresso, entretanto, continua a apaixoná-lo, está no seu sangue. Infelizmente, por causa do absolutismo racional que detém sobre os outros seres vivos, o homem estende o seu olhar sobre a gestão da Natureza de forma prepotente como proprietário maior das espécies de vida sobre a face da Terra, em nome do desenvolvimento, da evolução. Por outro lado, como conceber a vida hoje sem ar condicionado, automóvel, televisão, celular, computador, internet, aparelhos eletrônicos de alta precisão, e tantas outras comodidades que já fazem parte do dia-a-dia? É inegável, ainda, as vantagens do emprego do laser, da radioatividade induzida, dos satélites artificiais de monitoramento e pesquisas e tantos outros avanços que viabilizam as melhoras trazidas pelos tempos modernos em todos os campos da vida humana. No meu entendimento, o assunto é complexo, controvertido, questionável.

Porém, a minha conclusão, debruçada naquela janela, me sentindo em luto pela avezinha e pelo riacho, é que: o progresso é necessário, a Natureza também. Um princípio salutar: usufruamos do primeiro, não esqueçamos do segundo, pois todo um Éden foi disponibilizado pela Generosidade Divina para suprir o bem-estar do ser humano que ganhou de brinde a inteligência racional para gerir com sabedoria a fonte abundante de riquezas naturais recebidas. O que fez com ela... estará em pauta no momento da prestação de contas diante do Supremo Arquiteto.

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CRÔNICA 18
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4 comentários:

  1. Amiga Regina!
    Primeiramente, quero me reverenciar a mais esta Crônica (sim com c maiúsculo) que acaba de retirar do forno!
    Sensacional sua visão dos dois terrenos com tratamentos tão diferenciados pela mãe natureza( sim, pois também somos frutos, azedos muitas vezes, da mãe natureza!
    Como abordou ao final, não conseguiríamos mais “sobreviver” sem as benécies da tecnologia hoje ao nosso dispor. Por mínimo e fugaz exemplo, como faríamos sem os tecidos que acobertam nossas vergonhas, se bem que foram por nós mesmos criadas?!?!
    Sabe, minha amiga, eu não retiraria nem mudaria uma vírgula sequer do que observou, somente acho que entre nós “humanos” mesmo existem esses maltratos “naturais”. Como ver naturalmente um velhinho aposentado que, no adiantado da idade, sente toda a sua utilidade para o mundo ser menosprezada, servindo apenas para fazer compras em supermercados e levar e trazer crianças nas escolas?! Como observar uma “octogenária vovó” sentada em sua cadeira de balanço, à procura de uma realização dentro de casa? Ao menos dar conselhos, já que isso não demanda esforços hercúleos?!?!? E um homem novo que, por alguma causa do destino, se tornou portador de uma necessidade física e agora só lhe restam forças pra reivindicar, justificar e buscar ser “ótimo piloto” de uma cadeira de rodas?!?!? Que diferença faz daquela ave que viu seu ninho se desmanchar e seus sonhos tornarem-se coisas do passado?!?!? Lamentavelmente os seres humanos estão empedernidos com os sentimentos de “utilidade’ de “serviçalidade”! Quando não mais o são, estão sujeitos e observarem tristonhamente seus ninhos sucumbirem às motosseras dos mais vigorosos. Ainda assim, me sinto repensando nos baixíssimos avanços tecnológicos e confortos em populações africanas, onde seus habitats são mais preservados do que em outros lugares deste mundo e seus “sobreviventes” estão à míngua, rogando por uma gota, ao menos, de cuidado dos “homens detentores de poder e conhecimento” – os mesmos que desbravaram indocilmennte florestas, fluxos de água e atmosfera para se sentarem sobre um pouco mais de conforto – e tratam essa população com os mesmos ratings dos aposentados, vovozinhas e deficientes a que me referi..
    Você foi magistral da primeira à ultima letra de sua crônica, mas eu tenho que ressaltar suas palavras: “Um princípio salutar: usufruamos do primeiro, não esqueçamos do segundo, pois todo um Éden foi disponibilizado pela Generosidade Divina para suprir o bem-estar do ser humano que ganhou de brinde a inteligência racional para gerir com sabedoria a fonte abundante de riquezas naturais recebidas.”
    Confesso que saio de mim enquanto leio cada frase, palavra, letra do que escreve e tenha certeza que cada crônica está viva na minha alma até hoje como sinal de “capítulos de bem-viver” para a minha vida!
    Obrigada por mais esta pérola que acabou de dar-à-luz para nossos singelos sentidos!
    Beijos e não desista nuuunca de ser e ver assim!

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  2. Oi, sou eu mais uma vez passando e deixando um abraço e meu comentário. Em primeiro lugar, parabéns pelo novo texto. Vi não apenas uma análise acerca do mal que o ser humano faz à natureza em busca do progresso, mas uma síntese de como acabamos por passar diariamente por locais que a olhos mais sensíveis como os seus são cenários de vida, mas para o apressado, é apenas um terreno. Penso que para o construtor, aquele terreno ou riacho são apenas dinheiro ainda por conseguir pela transformação em cimento. Acontecve que poucos são tão atentos aos atos da vida como você, muitos são quase indiferentes porque são conduzidos por movimentos automáticos de ida e vinda ao trabalho, muitas vezes com pensamentos carregados de transtornos e preocupações, levando uma vida quase "robotizante" e outros, poucos dessa vez, não hesitam em ganhar dinheiro às custas do sacrifício da natureza. Mas uma coisa é certa, absolutamente todos dependem de um ambiente equilibrado e saudável, ou seja, a vida humana depende da forma como se trata a vida do planeta. Como precisa e artisticamente colocado no final do conto, o progresso reclama a conservação e a natureza reclama respeito. Excelente observação...Parabéns e espero o próximo conto.

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  3. Morri de dó da passarinha. Da leitura deste conto vêm alguns questionamentos:
    1) Por que o homem quer tanto destruir a natureza?

    2) Por que ele se sente tão bem em devastar tudo aquilo que é vivo?

    3)Existe limite para a maldade/ignorância humana?

    Queria não apenas saber as respostas para estas perguntas, gostaria de poder mudá-las.

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  4. Querida Regina!
    Amei a crônica, apesar do fato de que trouxe à minha memória lembranças de outros passarinhos e outros córregos e igarapés sacrificados, para manter um progresso sustentado pela insustentabilidade do meio ambiente. Eu também tinha uma vista bela de uma exuberante mata, bem próxima à minha casa, de onde utilizava o meu binóculo para olhar tucanos, papagaios, socós e diversos outros pássaros. A mata desapareceu 5 anos depois e os pássaros não pousam mais nas raras árvores que ainda existem. Passam por cima, em bandos, em direção às matas do Tarumã que, por enquanto, ainda teimam em existir. O igarapé onde pescava (aqui no Parque Riachuelo II, próximo ao SIVAM) já está sendo utilizado como fossa sanitária por diversos porcos humanos irresponsáveis (que me perdoem os porcos autênticos!!!). Todo esse meu desabafo está sendo transformado em uma crônica, que breve postarei em meu blog AMAZÔNIA VIVA (http://www.floresta-viva.blogspot.com), talvez não com o teu maravilhoso estilo poético, mas certamente com a mesma saudade. Um abraço!

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