quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O TRÂNSITO E OS NOSSOS LOBOS INTERNOS


No meio da manhã, o trânsito já configurava o caos. Impaciência e agressividade planavam no ar, convocadas pela desordem das obras na pista. O calor em ponto de combustão escaldava o asfalto e o juízo dos pedestres. Eram os congestionamentos de outubro fechando o verão com promessas de muito estresse. Cortadas súbitas e buzinas estridentes anunciavam um estado de contenda desenfreada entre os carros.

O semáforo fechou as intenções afoitas na via e, logo à minha frente, identifiquei o carro de um colega muito polido, semblante sempre sereno. Uma moto passou por mim e tentou aproveitar o estreito espaço para se posicionar na largada. Mas, em decorrência de irregularidades no solo e no bom senso do condutor, perdeu o equilíbrio e fatalmente roçou a pintura do belo modelo último tipo do nobre colega. Foi quando presenciei um espírito selvagem se materializar na guerra do trânsito: aquele gentil e ponderado causídico saiu do veículo com as mãos contraídas, olhar em chamas, narinas acesas e dentes cerrados, fechando os punhos embebidos de cólera no colarinho do assustado motociclista. De repente o alinhado terno converteu-se numa pele e eu tive a visão de um Pithecanthropus Erectus de volta à Pré-História.

Então, eu pensei alto: “Ele alimentou o lobo errado”. Essa expressão vem de uma historinha muito simples, mas que nunca esqueci, chama-se “Lobos Internos”:

Um ancião muito sábio encontrou o neto num estado de ira flagrante, por haver sofrido uma injustiça intolerável, por parte de um amigo da escola. O avô disse ao seu neto: "Deixe-me contar-lhe uma história. Eu mesmo, algumas vezes, imprimi ódio àqueles que se dispuseram a me prejudicar, sem qualquer arrependimento do mal que me fizeram. Todavia, o ódio corrói você, mas não fere seu inimigo. É o mesmo que tomar veneno, desejando que seu inimigo pereça. Travei muitas lutas contra estes sentimentos". E ele continuou: "É como se existissem dois lobos dentro de mim. Um deles é prudente e pacífico, vive em harmonia com todos ao seu redor e não se ofende quando não se teve intenção de ofender. Ele só lutará quando for certo assim fazer, e sempre da maneira correta. Ah!... mas, o outro lobo, este é exaltado. Mesmo as pequeninas coisas o lançam num ataque de fúria! Briga com todos, por qualquer motivo. Ele não consegue pensar porque sua sanha é extensa e constante. Tudo inútil, pois sua raiva não mudará coisa alguma para melhor, só causará muitos danos! Algumas vezes é difícil conviver com estes dois lobos dentro de mim, pois ambos tentam dominar meu espírito". O garoto, completamente envolvido por fala tão experiente, olhou intensamente nos olhos de seu avô e perguntou: "Qual deles vence, Vovô?" O avô sorriu e respondeu baixinho, em tom de segredo: "Aquele que eu alimento".

A violência de hoje nas ruas e estradas, me insinua uma correlação entre o trânsito e os nossos lobos internos. Nas vias públicas - uma selva inóspita - feras sanguinárias se travestem de motoristas protagonizando os vilões da sinistra prática de homicídios e vandalismos. Num ciclo de sandices, esses entes desatinados caçam, perseguem ou desacatam os que ousam obedecer às leis e às normas.

Existe, a meu ver, uma incongruência entre o que somos e em que tempo estamos: escalamos o terceiro milênio e adentramos na era da cibernética, onde tudo é provável e imprevisível; entretanto, o homem “civilizado” parece ter perdido o caminho para a espiritualidade, para a busca da evolução pessoal.

Nestes tempos politicamente incorretos, o automóvel – supostamente concebido para a libertação do homem em seus limites de tempo e espaço - tornou-se seu mais implacável executor, graças à irresponsabilidade e à impunidade vagando à solta por todo o País. Os personagens do tráfego – chofer e pedestre - violam as regras básicas de segurança e bem-viver no trânsito, agindo, não como frutos de uma civilização prestes a desfrutar dos benefícios das estupendas invenções deste século, mas sim, como animais selvagens irracionais e desgovernados, surgidos de um caótico inferno interior, matando e morrendo, quase sempre por motivo fútil. Todos os dias testemunhamos um derrame macabro das funestas conseqüências dos abusos cometidos no circuito da malha viária, em total desrespeito à ética e à cidadania, em franco ataque à existência de outrem. São incontáveis vidas ceifadas ou que subsistem mutiladas, arrastando as suas dores, com os planos para o futuro condenados à escuridão.

É preciso nutrir campanhas permanentes da vida pela vida humana. As leis carecem sair do papel para que as autoridades e a sociedade adotem providências enérgicas, alterando esse fluxo trágico, e assim salvaguardar vidas humanas inocentes, sem preço. Dentre tantas alternativas para amainar esse pesadelo, me atenho a duas proposições - minhas preferidas - por atacar o mal na raiz com a melhor de todas as armas, a educação:

- o assunto trânsito deveria estar inserido na grade curricular das escolas, como matéria obrigatória, por se tratar de investimento da maior importância a gerar proveito no futuro, quando as crianças de agora, conscientizadas e cientes de suas responsabilidades individuais em relação à coletividade, estarão com as mãos sobre um volante.

- a mídia deveria se dispor a participar na minoração dos males que afligem a sociedade. Não apenas martelando nas atitudes corretas de transeuntes e motorizados ou divulgando acontecimentos chocantes e suas terríveis seqüelas, mas, principalmente, chamando à reflexão aqueles que já se distanciaram dos bancos escolares, e quem sabe, haveria também de produzir resultados imediatos sobre os que hoje dirigem qualquer tipo de condução.

O sinal abriu e o estado de beligerância retomou a pista. Na certeza de que falta muito para, na era da robótica, incorporarmos as vestes próprias do espírito civilizado, saí dali evocando uma mensagem de Aquenaton - faraó egípcio da XVIII dinastia:

A verdadeira sabedoria é menos presunçosa que a tolice.
O homem sábio duvida frequentemente e muda de ideia.
O homem tolo é obstinado e não muda nunca.
O tolo sabe de tudo, menos da sua própria ignorância.


....................................................................
CRÔNICA 24
Mande um recado pra mim, comente este conto.
Poste um comentário!

4 comentários:

  1. Interessantíssimos conto e reflexão!!! Dirijo diariamente e e já flagrei os meus dois lobos macomunados para dilacerar irresponsáveis que me fecham no trânsito, que arranham o meu carro porque querem passar mais rápido entre as filas, que fecham o cruzamento, que "furam" o sinal vemelho, enfim....o trânsito é a arena perfeita para as almas demonstrarem o quão imperfeitos, egoístas e ainda animalescos somos. Mas aqui e ali alguém "puxa" a nossa orelha e tenta nos educar, a exemplo do seu conto. Mais uma vez só tive a aprender com suas linhas que, na verdade, são verdadeira caridade. Agora, com licença, mas vou ler novamente a lição. Beijos e parabéns. Ah.... quando vem outro conto?

    ResponderExcluir
  2. Amiga Regina,
    Adorei sua abordagem tão atual de um dia-a-dia pelo qual todos passamos morando em cidades grandes.
    Amei novamente sua habilidade em jogar com as palavras, formando “imagens irretocáveis” de cenários e sentimentos: “...saiu do veículo com as mãos crispadas, narinas acesas e dentes cerrados, fechando os punhos embebidos em cólera no colarinho do assustado motociclista....” No que poderia ser melhorado por acaso?!
    Essas discrepâncias, nós as vemos, mas “quantos lobos” estão lá dentro dos seus carros aparentando paciência e docilidade?! Mexa com um “cordeirinho” daqueles e verá o lobo que está lá dentro daquela pele!!!
    Regina, vejo constantemente esse tipo de encenação e sempre reflito também sobre 2 coisas: - o homem passou a usar o carro não só como veículo, mas como uma “armadura” que o torna pouco vulnerável a qualquer coisa externa. Portanto, “ardam-se os outros” mas o pior de tudo é a segunda reflexão: estamos vivendo um período de civilização em que está se perdendo paulatinamente o respeito, mas o respeito por qualquer coisa ou pessoa. Não vejo como certo alguns dizerem que “no meu tempo havia mais respeito e coisa e tal” mas muitíssimos desses senhores maduros hoje são desrespeitosos também! O desrespeito é uma “trajédia” de época e não de idades. Hoje, temos crianças, adultos, velhos e mulheres todos no mesmo saco da deseducação. Você acredita que escola resolve? Professores e alunos desde meninos estão assim também! Ensinar regras de trânsito? De novo? Todos tiveram muitas aulas e até provas para se habilitarem. Respeito é um carvalho que damos em mudinha pra criança. Se bem cuidado será frondoso e altivo. Mas os pais não estão sabendo mais onde arrumar a tal de mudinha e acriança cresce sem esses valores. Os que cultivaram essas mudinhas e hoje são adultos, a esmagadora maioria “vendeu a madeira”. Não sou pessimista mas ainda vejo algo pra refrear o desrespeito: chama-se medo! Assim ainda tenho fé na policia e no poder judiciário porque se isso acabar, Valha-nos Deus!!!
    Obrigada por mais esse presente literário.
    Beijos

    ResponderExcluir
  3. Confesso que a minha maior motivação para ler seus contos é sensação que eles me causam de que eu sou um fruto bem verdinho... É impressionante o impacto que suas frases causam, penetrando no mais profundo da alma e tirando a venda dos olhos dos seus leitores!
    Neste conto, me deparei com a Joyce que precisa evoluir, evoluir e evoluir!
    Penso que este talvez que a acomodação das pessoas com o que elas são ou tem as impede de de crescer como seres humanos. Por isso o mundo está cheio de monstros, que acham que sabem tudo, que tem tem tudo e que podem tudo!!!
    Mais do que nunca precisamos estar sempre reflexivos, para que este mal não nos invada sem que percebamos.

    ResponderExcluir
  4. G, cada ser humano possui seu lobo travestido das mais diferentes peles. No cotidiano da vida, por mais calmo que seja o homem, não há como este não se estressar ao enfrentar o transito caótico da mais pacata cidadezinha desse nosso Brasil. E, veja, sabe de quem é a culpa? Mas uma vez dos governantes. Trancados em seus gabinetes, não se apercebem que as cidades crescem cada minuto. Mão se preocupam em dotarem as cidades de melhores estuturas de malha viária, bom asfalto, sinalização, dente outros. Tudo isso, aliado às precárias escolas de auto, que só visam vantagens pecuniarias sem se importarem efetivamente em ensinarem os novos candidatos a motoristas, faz com que se tenha um transito louco, onde trafegam as mais variadas bestas, que, por seus atos imprudente estão a causar infortunios em inumeras famílias. De tudo, tnha certeza, em defesa de seu patrimonio, os "os lobos tambem choram".
    Mais um conto que leva seus leitores ã reflexão. P

    ResponderExcluir

Obrigada por participar do Blog, comentando este artigo.
Aguardo o seu retorno no próximo conto.
E não se esqueça de recomendar aos amigos.

REGINAFalcão