sábado, 25 de julho de 2009

O QUE É SAUDADE?

Saudade... Em muitas ocasiões lembrei-me desta palavra pela formação melodiosa das sílabas, um delicado e belo termo aninhado no nosso glorioso idioma. Além da harmoniosa sonoridade fonética, seu significado resgata sempre algo valioso para se tornar impresso na alma. A Gramática afirma que é substantivo abstrato, a prática, porém, comprova que é inegavelmente concreto. Tão concreto que gera efeitos colaterais permanentes, em forma de cicatrizes.

Grandes e pequenas saudades assolam o peito de cada vivente. Esse sentimento é imune à ação balsâmica do tempo, resistente aos frágeis mecanismos de defesa da vítima e não permite a cura: propaga-se e contagia, irremediavelmente, toda a humanidade, em qualquer época.

Mas como traduzir a essência da saudade fora da fria definição do dicionário? Em meus versos ligeiros, em total "descompromisso" com a métrica, tento explicar:

...................... O QUE É SAUDADE?

De sabor agridoce e nostálgico tempero,
Marinando desassossegos regados de suspiros,
A saudade é mel fervente a nos queimar certeiro
Ao tatuar momentos bons em nossos sentidos.

É manhosa brisa de doces lembranças,
Fragmentos eternos, mas que não voltam mais,
Sopro de fugaz passado que noss’alma balança
A entranhar-se nas veias e não sair jamais.

É pesar pela presença que se faz ausente,
Ou mesmo pelo bem que sempre queremos ter.
Dilacera o peito e sangrando o coração carente
Implanta inclemente dor que nos traz sofrer.

........................................................ REGINAFalcão

Um episódio me vem à lembrança interpretar o significado, na vida real, dessa palavra tão empregada na poesia, na música popular e na rotina diária de todos os mortais que mergulham em memórias de tempos felizes:

Eles - o casal - residiam numa rua do meu bairro. A morada ficava nos fundos porque toda a fachada foi reformada para substituir o antigo boteco por uma pequena mercearia, fruto de renhidas economias, com muitos planos para avançar nos negócios. Ambos tinham meia-idade ou a idade inteira para bem-viver com a cor do inverno habitando seus cabelos. Dava gosto vê-los juntos: dividiam a mesma fruta na sobremesa, sempre; trabalhavam muito, mas enfrentavam a árdua lida com alto astral e gracejos recíprocos. Durante o dia, tinham, com freqüência, um agrado qualquer de um para o outro: um ajeitar de gola ou botão da camisa dele, um aperto no queixo dela. Troca de sorrisos cintilava no ambiente, não pelo brilho do dente de ouro ostentado com orgulho pelo garboso senhor, mas pela extrema simpatia entre eles, irrigada por uma cumplicidade explícita. Uma sintonia acalorada prendia com laços vitais aqueles dois seres: no aspecto laboral, como duas engrenagens que se interligam, no aspecto pessoal, uma convivência inspiradora. Então, de súbito, a violência fez visita ao novo ponto comercial num assalto que gerou a tragédia: enquanto os bandidos violavam a caixa registradora, o susto pela arma apontada para a cabeça da esposa, levou o marido a uma síncope fatal. Após os primeiros dias do infortúnio, todos temiam pelo estado de uma viúva criada pela sétima costela do seu par, agora distante. Tudo era esperado pelos parentes, amigos e vizinhos: depressão, pânico, anorexia. Contrariando as expectativas, a doce senhora reagiu bravamente e manteve-se de pé. Passou a escrever em folhas de um caderno palavras abarrotadas de silêncio... Perguntavam se ela sentia falta da companhia do amado parceiro, ao que ela sempre respondia: “Só sinto muita saudade, cada dia mais. Uma saudade a morder-me o corpo até os ossos.” Os dias se passaram e completou um mês do infeliz acontecido, no calendário da morte. Mercearia aberta, tudo limpo e arrumado, o primeiro cliente chegou e chamou pela gentil senhora para separar as compras. Ela descansava numa cadeira de balanço, próximo ao balcão, abraçada a um porta-retrato, colo banhado de lágrimas, expressão plácida, porém... sem vida. Chamaram o médico, a ambulância e todo o socorro possível, mas ela estava ausente. Depois dos exames feitos, não conseguiram constatar nenhuma razão para o óbito, mas todos tinham a mesma certeza: ela morreu de saudades.

Não mais esqueci esse fato e tudo o que em volta dele se passou. Lembro ter buscado blindar o meu peito contra a invasão dessa suave “arma química” que atravessa as estradas do corpo para correr livremente no sangue. Quisera eu colher o passado e escondê-lo num espaço oculto atrás do tempo, mas a saudade me espreita e se antecipa, não tenho chance.

Ao me fazer gente grande, deixei de temer o escuro, o desconhecido, a velhice, a pobreza, e até a morte. Mas a saudade é algo que me assombra e me perturba o sono: desarma a minha guarda, e sem o meu assentimento, assenhora-se do meu ânimo com a foice em punho, tortura e fere impiedosa. Dela, ainda tenho medo. Mas, negociei uma trégua e já consigo ter uma convivência de paz com essa detentora de invencível força: quero pensar, também, que ela atesta a existência de passagens que em algum momento fizeram toda a diferença, trouxeram colorido ao meu mundo, deram sentido a cada fase do meu tempo. Com essa nova visão, quando ela bate à porta cerrada do meu coração, eu lhe concedo uma entrada restrita: permito apenas que ela nutra a minha imaginação, sacuda as minhas idéias, me faça repensar os conceitos para, assim, seguir em frente, fortalecida, com as antigas feridas cauterizadas.

Quando adentramos neste mundo, herdamos um pacote pronto e com uma genética imperfeita, uma natureza a ser polida para mensurar nosso mérito. Tudo o que se desdobra após a tomada de posse do nosso corpo pelo nosso espírito, torna o viver uma espiral imprevisível e enigmática. Cabe a nós traçarmos a nossa história, tomarmos as rédeas do nosso destino e escolhermos a melhor trilha. Alcançar êxito nesta empreitada, é batalha diária, é guerra constante com nós mesmos, é superação a todo custo, até mesmo dos golpes abertos pela saudade. Por tudo isso, o mais importante mesmo é viver, com todas as forças, cada instante agora... para valer a pena ter saudade depois.

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CRÔNICA 20
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7 comentários:

  1. Lindo conto!

    Me fez lembrar de alguém que sinto muita saudade e que poderia ter aproveitado muito mais os momentos que estava com ela. Sei que um dia ficarei longe das pessoas que mais amo, por isso procuro fazer o que você escreveu: viver cada momento que estamos com quem amamos com toda a intensidade!

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  2. Querida Regina!
    Como degustei cada letra do que escreveu sobre SAUDADE...! Impressionante como vivenciou neste conto algo tão humano, algo tão inexplicavelmente comum a quem tem um coração que ainda bate...
    No dia 8 de abril próximo passado, estava eu num velório de um senhor muito querido quando, pelas tantas da madrugada a minha conversa com um dos filhos começou a caminhar sobre esse assunto-palavra tão doce e ao mesmo tempo tão amarga. Naquela época havia-me caído nas mãos um artigo do Miguel Falabella em que buscava descrever sobre a tal de saudade; Provou ele que muita coisa dói, mas a dor maior é a da saudade. É a dor de não saber mais o que está ocorrendo, onde está, como está e se está, alguém que “não está mais”. Podemos ficar sem ver ou estar presentes em alguém e por isso sentir saudade, mas dói se não sabemos se ainda está, como está ou onde está.
    É fatal sentirmos lembranças mas sentirmos saudades é quase que um atalho virtual no caminho de nossa visa, onde se deixa de viver o real para se viver o passado de momentos ou pessoas inestimáveis. Quando voltamos à nossa estrada de caminhada, o fazemos por algum tempo carregando a realidade de nossos passos apoiados em nossos sentimentos ressurgidos como se fossem realidades recém vividas.
    Fácil descrever academicamente qualquer lembrança, com a retórica de uma tese, mas impossível descrever uma saudade sem que sintamos que faltam palavras. Sim porque se conseguirmos descrever uma saudade, certamente será uma simples lembrança, mas se nossos olhos expurgarem uma lágrima, se os cantos de nossos lábios pesarem mais do que o normal ou se as nossas pálpebras nos surpreenderem fechadas enquanto o raciocínio vê-se perdido em achar palavras, aí sim é uma saudade... e se nesse momento ainda uma lágrima teimar em dar as caras, é uma saudade doída e importante.
    “Passou a escrever em folhas de um caderno, palavras abarrotadas de silêncio...” Só esta frase, por si só é um poema tão arrebatador quando a poesia que escreveu e o tema que abordou. A cada dia mais estou ciente que seu cérebro é interconectado com o seu coração! Este também é formado por uma rede incomensurável de neurônios com funções não lógicas, mas arrebatadoras quando as do seu raciocínio.
    Obrigada, amiga! Você se tornou a água cristalina da fonte imprescindível para matarmos nossa sede do bem-viver.
    Saiba que você é sonhada e esperada semanalmente, mas quando aparece no seu blog, surge encantadoramente linda trazendo, em cada coisa que escreve, uma pele suave, tenra e aveludada de um sentimento e de uma alma de menina sonhadora miscuida de uma senhora inquestionavelmente sábia.
    Obrigada, mais uma vez e que Deus continue te conservando assim, pois existem muitas de nós que sentem falta de gente do seu quilate.
    Beijos

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  3. saudade,já inventaram o antídoto?
    seria a alegria?
    creio que não.
    saudade, o oculto da mente/coração.
    O nostalgico,
    o reviver lembranças mil,
    a eterna saudade
    queima igual a um pavio.
    G, mais una vez surpreende teus leitores e os faz reviver os caminhos que já percorreram em suas vidas.
    Belo conto 10. P.

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  4. Mais um conto de arrancar suspiros. E por falar em saudades, já estava com saudades tanto de apreciar suas formosas palavras como de comentar humildemente seus contos. Começo dizendo que vivenciamos o referido sentimento, muitas vezes associados com outros como nostalgia, amor, paixão e etc.. E quando a saudade está aliada a um desses sentimentos, a confundimos e às vezes curtimos, se bons, ou sofremos, se a emoção a que nos reportamos e triste. De qualquer forma, até ler "O que é saudade?" eu não sabia direito o que era saudade! Parabéns, além de emocionar profundamente, traduz o que é saudade. Um grande abraço e até a próxima.

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  5. Puxa, que bom seria se houvesse uma fórmula para não sentir saudades... mas é como você disse (muito bem dito por sinal): a saudade atesta a existência de algo que foi maravilhoso e o único jeito é aproveitar a vida para sentir saudades depois.

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  6. Mais uma vez você nos dá um lindo conto, falando sobre um sentimento que alegra e entristece o coração, e que às vezes não se preenche levando muitos a desolação.
    Ela pode se infiltrar em qualquer pensamento; um filme,um lugar, um amor, de uma amigo que se foi, uma faixa etária. A saudade é também o amor que fica, e como dizia Renato Russo:" É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, pois se você parar pra pensar, na verdade não há..."
    Faz algum tempo que não entro no seu blog , mas depois de lê essas maravilhas valeu! Parabéns

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  7. Eu confesso que não tinha lido algo tão profundo, e me levou mais longe na minha reflexão sobre saudades. Gosto de sentir saudades… das coisas boas que vivi, das pessoas que amei e continuo amando, das que nunca vou deixar de amar.
    Acho que minhas saudades agora vão ter um novo sabor, agora sei e entendo melhor de saudades… O amor esta em todas elas, e por isso fica em um lugar especial: no nosso coração.
    Você foi além, muito além. Sensacional.

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REGINAFalcão