domingo, 17 de abril de 2011

UMA FOLHA EM BRANCO

É cedo ainda. A noite acabara de abrir as escuras cortinas com o mais vivo tom gris no espaço. Um pano de fundo quase marinho para as estrelas, em múltiplas cores, posarem cheias de pudor sem o véu da neblina naquele céu limpo. As árvores pintadas de abril albergam os pássaros adotados para adormecerem em seus braços, sob o feitiço da lua. Uma brisa úmida goteja o sereno das ramas e no cair dos pingos cria cantiga de ninar irresistível para os nossos sentidos. Todo o mistério das horas calmas está presente no sossego das sombras. Em tempos assim, a poesia solta no ar um hálito de flor noturna e diz aos nossos olfatos que a ternura se faz urgente. Na leveza do movimento dos vultos à meia-luz, regido pelo vento nas folhas à meia-voz, em noites como esta, me apetece escrever à moda antiga, com a tinta conduzindo a dança das palavras em cada pauta do papel.

Disposta a redigir o conto a ser publicado ainda hoje no Blog, recostei-me numa poltrona de descanso na varanda, armada com a caneta em punho e uma folha em branco. Deixei a imaginação à deriva para pinçar uma inspiração, pois cruzar as fronteiras do âmago requer suscitar aquelas ciências ocultas nos recônditos da mente. O ritual tem início no exercício da respiração profunda. Carece de relaxamento para adentrar na pele, chegar ao coração e colher a emoção que vaza pelos atalhos para abastecer a caneta e assim dar início à escritura. No compasso desse rito, tencionava expressar meu canto até o ponto final. Nas minhas mãos, a alva folha me instigava a brincar de lapidar palavras, a treinar com o cinzel para esculpir um escrito.

Porém, o silêncio dessa hora de intuitiva contemplação induzia minhas pestanas a pegar no sono e, num fechar de olhos, ameaçava sabotar a minha intenção. Um estado alfa se assenhoreando da minha vontade me levava a enxergar a paisagem exterior através de uma estreita fresta entre minhas pálpebras pesadas como chumbo. Por mais que tentasse manter semiabertas as janelas da alma, a lassidão me entregou de sobejo aos domínios de Morfeu.  

Um sonho inusitado e fantasioso me esperava na outra margem, daqueles sonhos que aparecem uma vez na vida. Estava eu diante de um oráculo cercado por tochas acesas. No topo da enorme escultura a inscrição “CONSCIÊNCIA” gravada em letras estilo romano, conferia ao visitante o direito de obter resposta a uma única pergunta. Tudo ao redor me lembrou um oásis plantado num deserto sem areia, com milhões de pedrinhas. De beleza surreal, o projeto concebido por inigualável Arquiteto esmerou-se na decoração do nada com imensas rochas brutas cercadas no chão por infindáveis seixos rolados, daqueles que perdem as arestas pelo giro em torno de seu eixo. Rústico e original, o lugar sugeria um canto inexplorado algures na Terra, se é que na Terra eu estava.

Quase sempre, me dissocio do conteúdo de sonhos e pesadelos e sou meio cética quanto aos seus significados ou superstições que envolvem suas tramas. Mas algo ali parecia diferente e quem sabe, divertido. Então arrisquei uma pergunta que anda pontilhando a cumeeira da minha curiosidade: “Estaria eu cumprindo o meu destino na Terra?” Uma voz mansa e segura adornada pelos efeitos especiais de um eco milenar, assim me respondeu: “Imagine uma moldura e aloje dentro dela um autorretrato atual, sem máscaras, construído pelas suas obras. Se a ilustração final não precisar de retoques, a missão cumpre rumo certo”.

A tarefa me sugeria nível de dificuldade zero, grau de complexidade nenhum. Uma ampulheta ao pé do portal começava a medir meu prazo. Felizmente, trazia comigo os instrumentos de escrita que segurava antes do cochilo. Envolta na mística atmosfera exalada da grande pedra, tomei a folha de papel e iniciei as pinceladas: coloquei todas as minhas crenças, os meus projetos, as minhas realizações, os meus erros e acertos, as mudanças de atitude pela revisão periódica dos conceitos, os meus achados e perdidos nos feitos e omissões, os sentimentos que habitam o meu secreto.

O perfil foi se desenhando, as formas foram se definindo e a efígie foi se revelando. Manejava os traços com certa celeridade, ávida pelo desfecho daquela incógnita. Com o foco nos rabiscos, gastei horas para produzir o esboço dentro da maior fidelidade possível. Em determinado instante, voltei o olhar para o exótico cronômetro à minha frente e observei que o cônico vaso superior já havia transferido quase toda a areia. Supondo ter finalizado o desenho, estirei o braço esquerdo para melhor visão do todo. Percebi que as linhas não completavam os contornos, não se ligavam nas extremidades. Inquieta, fiz uma pausa para capturar algum detalhe esquecido para compor o restante, mas ali estava a minha vida desnuda, por inteiro. A ampulheta sinalizou a fase esgotada, formalizando um roteiro organizado com regras rígidas e impressionante lógica.

Uma sensação de ansiedade balançava a minha estrutura e punha minhas fortalezas em xeque. Rebusquei, num retrospecto insistente, as peças faltantes na montagem, inconformada com tantas lacunas nos meus haveres e descobri que os intervalos na figura gráfica provinham de encargos não cumpridos, ainda não preenchidos no meu cadastro terreno. E diante do meu pasmo, o resultado intrigante deixava à mostra a inesperada resposta: o meu retrato estava incompleto, tracejado, porque as tarefas inconclusas, como humana criatura, deixavam as vagas entre os traços. Caindo das nuvens, compreendi que minha missão carecia de ajustes e consertos, e oxalá eu tenha curso no tempo para a empreitada: muito há para aprender, tudo para ensinar, muito mais para ajudar.

Não sabia ao certo em que mundo estava, em que dimensão havia me enveredado, mas sabia ser temente ao Onipotente Senhor dos Mundos, soberano sobre o meu existir. Sabia ser autora inevitável de longa lista com petições de escusas para com os meus. Sabia ser devedora de atenção para com muitos. Instintivamente, abri a gaveta do peito, e entornei toda a estampa do papel de volta ao meu interior. Deixei a folha nua, vazia de mim, sem vestígios. Do alto da brancura de sua superfície, aquele pedaço de papel me espiava registrando meus propósitos.

Lembro que todos os meus ossos palpitavam o desejo de voltar ao mundo material, torcendo para que tudo aquilo fosse apenas um sonho e assim me fosse aberta outra chance de acordar, completar a imagem e ficar bem na foto do outro lado.

Acordei puxando o fôlego, trêmula do pé à cabeça, e até minha sombra suspeitava dos limites de onde terminava o sonho e começava a realidade. Uma fênix em forma de coruja sobrevoou minha varanda fazendo a entrega de um feixe de alívio. Estava de volta ao meu mundo, em carne, osso e gratidão. Tudo não passou de um sonho, nada mais que um sonho. Mas nas minhas mãos, uma folha em branco me olhava cobrando as promessas.

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CRÔNICA 45
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3 comentários:

  1. Oi..Ó eu aqui outra vez! Particularmente, gostei muito desse conto por me identificar com ele. Não posso deixar de falar da minha experiência pessoal. Durante muito tempo adiei decisões e deixei coisas para fazer na minha vida num momento ideal, tipo: malhar quando sobrar um pouco mais de tempo ou eventualmente acabar engordando; quero muito fazer um esporte, mas ainda não não me movi para isso; sou tolerante ainda com uns vícios (só 2 ou 3) que não vou contar aqui, é claro! Bom, na verdade, penso como você, basta uma reflexão e uma tomada de decisão para corrigir a direção dos nossos atos quando fazemos escolhas ruins. A tomada de consciência aliada à iniciativa podem nos fazer muito bem e mudar alguns rumos mantidos pelo comodismo. Ótima reflexão. Continue sonhando com coisas assim para colocar aqui no blog ok? Beijos e parabéns!

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  2. Forte, envolvente, impactante.

    A tua experiência nos conduz à reflexão do retrato de nossas vidas.
    Pintar um quadro da realidade é estar diante de um espelho sem distorções, o qual desvela as mais sutis imperfeições de nossas condutas.
    Mas o que fazer diante do confronto com nossos erros? Certa vez, alguém me deu uma lição de fé dizendo: pinte o quadro da tua vida exatamente como você a deseja, por mais distante que esteja este desejo.
    Sensato é o homem que sabe quem é e o que precisa mudar para se tornar melhor. Sem dúvidas, esse é um dos segredos para a evolução!

    Obrigada por mais um poderoso ensinamento!!!

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  3. Voce conseguiu colocar em cores de crônica um estado de introspecção que todos nós, mais cedo ou mais tarde, também passamos.

    Quem de nós não se achou a meditar sobre o passado? Horas, dias, anos anteriores... Quantas pessoas redescobrimos nesses videotapes? Quantas recriminações, orgulhos, repensares nos são projetadas como lições aprendidas ou méritos honrosos?!
    Muitas das vezes, ao descobrirmos um vazio em nosso passado, não vemos mais possibilidade de reparar o que o tempo cicatrizou. Mas que nos fique anotado na nossa agenda de experiências que “não o façamos mais dessa maneira” ou que nos dê cátedra para repassar aos que precisam de orientações.
    Mais uma vez amei sua abordagem tão poética de estados tão naturais pelos quais passamos e não damos o devido valor de analisá-los com a delicadeza e clareza tão típicas suas.
    Mil Beijos Amiga
    Parabéns por mais essa pérola!

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