sábado, 18 de abril de 2009

UMA SINGULAR FLOR SELVAGEM


No início do ano precisei comparecer a um posto da rede pública para vacinação contra a febre amarela, por exigência da ANVISA para os brasileiros que pretendem se ausentar do País. Ao chegar no posto de saúde congestionado de pessoas para atendimento, resolvi circular pelo salão de espera para explorar o lugar enquanto aguardava a minha vez. Parei frente a uma porta de um dos consultórios médicos onde figurava uma pequena placa com o nome da doutora responsável por aquela ala sobrelotada de doentes aguardando pela chamada. Era um nome diferente, pouco usual, que ficou martelando na minha cabeça, me instigando a buscar maiores informações no setor administrativo. Consegui descobrir que se tratava da médica que primeiro chegava e última que saía e saía dali direto para atendimento no pronto-socorro; nas folgas, orientava, voluntariamente, as mães nos clubes sociais dos bairros e nos casos dos seus assistidos, convalescendo de desnutrição, visitava-os sempre que podia. Voltei a olhar para a porta com o coração acelerado, porque aquele nome trouxe à tona uma fase do meu passado com minúcias que nem eu mesma sabia estarem arquivadas.
Sempre que eu vinha da escola, a poucas quadras de casa, ainda aos sete anos, encontrava no caminho uma outra criança, de mesma idade, fazendo sempre o mesmo percurso até uma pequena mercearia para apanhar os jornais descartados pelo comerciante.  Muito apressada, e quase sempre no mesmo vestido com a barra “bordada” de carrapichos, abraçava o feixe de jornais com carinho. Certo dia, acidentalmente, esbarramos uma na outra: jornais e livros espalhados na calçada, surpresa, vexame e depois altas risadas. Foi quando reparei no detalhe que ainda não tinha visto em ninguém: um par de olhos claros, vivos e oblíquos, sendo um de uma cor e outro de outra, circulados por uma cortina de cílios longos e espessos. Ao recolhermos os objetos do chão, vi que ela levava, no bolso do vestido, uma flor exótica de caule curto: as pétalas desabrochavam nas pontas das hastes de forma a lembrar as asas acetinadas das borboletas. Plantas e flores sempre foram o meu forte e o meu fraco. Então, o formato original daquela flor me interessou sobremaneira. Apontei para o bolso que abrigava o objeto do meu desejo e ela se antecipou: “Essa flor tem o meu nome, ela veio do fundo da mata, é muito forte e aguenta qualquer mudança de tempo; eu tenho um pezinho ‘pegado’ no meu jardim”. Eu lhe disse, animada, que sabia como fazer dois crótons de cores diferentes crescerem “misturados” e poderia ensiná-la em troca de um broto daquela flor. 

O sol bravo do meio-dia escutava a nossa conversa, morenando a nossa pele, mas combinamos, assim mesmo, ir até a casa dela que ficava ali perto para permutarmos as “experiências botânicas”. O lugar ficava atrás de uns arbustos, onde morria o asfalto e nascia um bosque de oliveiras apinhado de folhas secas no chão, estalando sob os nossos pés. Atravessamos uma estreita passagem margeada de um matinho que soltava as sementes espinhosas na nossa roupa, por isso os salpicos de bolinhas arrepiadas na bainha do vestido dela, todos os dias. Ao chegarmos, me pareceu uma visão de contos de fadas, pois o jardim da pequena desconhecida era um jardim de verdade, exuberante e bem tratado, com plantas comuns, que de tão bem arrumadas, suplantavam qualquer jardim de revista. No centro dos elaborados desenhos com folhagens coloridas, uma casa pequena, de madeira rústica, aparência humilde, acessada por uma escada de vários degraus. O parapeito da janela exibia várias peças de artesanato útil feito de jornal para venda aos passantes interessados. 
Entre os tratados sobre mudas e coisas de jardim, não contive a pergunta: “O que você vai ser quando crescer?” Respondeu sem titubear: “Eu vou cuidar da saúde das pessoas, porque quando a gente ajuda com vontade, o doente sara mais rápido". Explicou que a mãe havia caído da escada no dia em que o pai saiu pela última vez, afetou partes do corpo e ficou paralisada sobre a cama. Ela cuidou da mãe, acreditando que poderia vê-la andando de novo. A melhora se processou a galope, transferindo a jovem mãe da cama para a cadeira e já começavam os ensaios com muletas.
Preocupada com o meu horário (criança naquela época, tinha o passo marcado de perto) avisei que estava me retirando. Ela insistiu para que eu entrasse em sua casa e almoçasse com ela. Enfeitiçada pela atmosfera de bons sentimentos naquele oásis de beleza natural, acolhi o convite e subi. Tudo no pequeno cômodo era muito simples e também muito limpo. Numa cadeira de madeira com rodas improvisadas, a mãe - uma senhora magra e habilidosa - tecia os objetos de jornal que sustentavam a família, apoiada numa mesinha tosca, feita de toras. Uma irmã mais moça, se revezava nos cuidados auxiliares. O pai era vendedor ambulante, um dia saiu para as costumeiras viagens e não voltou mais. Na verdade, havia ido embora, mas a minha nova amiguinha não aceitava essa versão; alegava que o pai foi obter recursos para dar conforto à família. Sem deixar o doloroso assunto prosperar, encerrava a referência ao pai nesse ponto, sabiamente.

Todos aprumados à espera do almoço, inclusive dois bichinhos de rua adotados. Com toda a naturalidade, a pequena anfitriã serviu o prato principal: apanhou uma bisnaga de pão, dividiu os pedaços entre a mãe, a irmãzinha, ela, outra porção igual para um brejeiro filhote de vira-lata que ela chamava de Sansão e outro tanto para o Caçador - um gato abandonado e desnutrido. A porção dela foi dividida ao meio comigo. Fiquei desajeitada, não sabia se aceitava ou se recusava. Percebendo o meu dilema, atalhou: “Pode comer, de sobremesa tem manga do quintal esfriando”.  Uma pequena bacia de alumínio com água sobre a mesa “esfriava” as mangas porque não havia uma geladeira, nem luz elétrica na casa.   A mãe comentou que por causa da insistência e dedicação da pequena, estava superando um problema de saúde que os médicos atestaram ser irreversível. Que a valente mocinha, incansavelmente, cuidava de tudo e esquecia de si mesma. Era determinada e se aplicava nos estudos com unhas e dentes. Somente à noite lhe sobrava algum tempo para estudar à luz de lamparina. Tinha uma receita bem-humorada para todas as ocasiões e pensava como gente grande. 

Depois de tudo o que vi e ouvi, jurei, intimamente, não reclamar por mais nada no meu universo diário. Do encontro com aquela singular flor selvagem ficaram algumas imagens muitos fortes: um sorriso fácil, cheio de certezas, em oposição à extrema pobreza, à perda do pai, ao infortúnio da mãe; a compaixão pelo gato e o cachorro na divisão do alimento, e principalmente, a partilha comigo de um pedaço de pão já insuficiente para sua refeição.  Depois disso, nossos caminhos tomaram rumos diferentes, mudei de escola, fiquei ocupada com inúmeras atividades e não mais tive notícias daquela família.
Todo esse episódio passou em segundos na minha frente diante daquele nome.  Coisas do passado, só uma coincidência de nomes... pensei com os meus botões. Chegou a minha vez, fiz o meu procedimento e estava saindo do Posto quando aquela porta se abriu e de lá saiu um ancião andando devagar, sendo acompanhado até à porta por uma simpática figura feminina vestida de médica.  Por detrás dos óculos... a mesma face da infância: olhos enviesados como amêndoas, sendo um verde e outro azul, guardados por pestanas densas e longas.  Ao me ver - uma estranha diante da sua porta, de queixo caído - esboçou um sorriso em forma de cumprimento, como quem não deve nada à vida e recebeu o próximo paciente.  Saindo dali, segurando a emoção sobrevinda ao choque do reencontro, prometi a mim mesma, mais uma vez, não resmungar por simplesmente... nada, até o fim da minha viagem terrestre.
A mim parece, muitas vezes, que algumas pessoas são providencialmente "sopradas" em direção à nossa rota, como ventos fortes, para, de alguma forma, nos apontar alguns ajustes necessários nas velas do barco da nossa vida.

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CRÔNICA 15

6 comentários:

  1. Que bom que é entrar no seu blog e encontrar um conto novinho em folha. É como chegar na cozinha com fome e encontrar um cheirinho de café e pão quentinho no final da tarde! Bom, indo ao conto saído do forno...mais uma vez parabéns! Outra lição a qual me curvo. Certamente estará nas minhas reflexões de hoje em diante. Aliás, seus contos tem me ensinado a ser uma possoa um pouco melhor a cada sábado. Acho que o Criador os soprou para mim para que minha alma pudesse crescer...! :o)

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  2. Maravilhoso! A verdadeira beleza da vida é o poder de superação, da força com que ela nos impele para enfrentar desafios e ultrapassar dificuldade As experiências não estão em grandes acontecimentos, mas em momentos considerados comuns. Emocionante, o que o uma simples singular flor selvagem pode fazer em nossos sentimentos. Cada dia você se supera como escritora. Deus lhe abençoe

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  3. No decorrer da vida muitas pessoas nos ajudam com suas histórias e nós sentimos gratos a elas. Histórias que podem serem instrumentos capazes de fazer crescer. E você conseguiu nos passar tudo isso. Parabéns

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  4. Lembrança traduz regressão.Lembranças de parentes queridos, bons amigos, coisas acontecidas, um reviver de memória, uma grata satisfação.
    O chip da memória, sem duração limitada, esta sempre a buscar no infinito de seus registos não só imagens, mas também cheiro bão.
    O cheiro de uma rosa, de um lirio ou de um cravo, da relva ou do pasto, aguça sempre a memória, então querida G, conto como esse, não deixam de ficar na história. Sucesso P.

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  5. Gostei da forma como ela marcou você. Marcou de uma maneira positiva e natural. Não foi uma bondade forçada, programada. Ao invés disso, foi uma bondade baseada em AMOR. Como isso é raro e ao mesmo tempo bom.

    E que coincidência heim?

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  6. Olá, Amiga! Que saudade!
    Voltei de viagem e encontro mais um néctar para o “paladar” da reflexão. Só você mesmo pra conseguir devaneios assim... Sabe, amiga, parece incongruente, mas tenho me convencido que sou fatalista. Eu teimo em me persuadir que, quando alguém tem uma vida focada e apaixonada pelo que deseja, devidamente auto-embasada e positivada, ela será, mais ou menos dia, aquilo que sonhou. Infelizmente creio que serve pro bem e para o mal. No seu conto, sinto uma vida “fatalizada” desde a infância, para um destino nobre, sadio e até cumprindo seu papel de anjo na Terra. Sempre observei um terceiro grupo que não tem determinação positiva, nem negativa; está sobrevivendo ao sabor dos ventos de cada dia... Infelizes destes pois não podem sequer sonhar em que porto irão atracar. Será também uma fatalidade? Ainda creio que sim, pois os dias passarão da mesma forma, só que lamentavelmente estas pessoas não possuem o mínimo de previsão de cada milha sossobrada. Sorriem com a mesma facilidade que choram, ao deleite dos acontecimentos emergentes. Mais uma vez, parabenizo meus olhos, e consciência por aprender mais um pouco com o que escreve. Sensacional o “bordado de carrapichos na saia” pois não os vê como entraves, mas sim como adornos por cada metro que caminhamos por entre dissabores. Obrigado, AMIGA! Você se supera a cada dia!

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