sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

HUMANOS DE ESTIMAÇÃO


Há algumas semanas circulou nos noticiários a façanha de um cão arriscando sua vida para tentar salvar o parceiro que tinha sido vítima de atropelamento numa rodovia de intenso tráfego no Chile. Refiro-me, com ênfase, ao vídeo do cão herói publicado no Youtube, pela singularidade da impressionante cena.

Aquele caso redirecionou minha atenção para esses animais tão especiais - os cães - pelos quais sinto indisfarçável ternura, independentemente de raça... definida ou indefinida ou de raça nenhuma.

Convivo com a idéia de que para sermos completos, como pessoas, precisamos desenvolver a capacidade de exercitar o amor e o respeito por tudo o que nos cerca, nisso incluídos a Natureza e os animais. Amar e ter compaixão pelos seres vivos são atitudes capazes de transformar a nossa vida e o mundo inteiro, e ainda enseja a descoberta da porção divina em cada ser humano.

São Francisco de Assis pregava: “não te envergonhes se, às vezes, os animais estiverem mais próximos de ti do que as pessoas”.

No mundo globalizado de hoje, invadido por relacionamentos virtuais, os amiguinhos de rabo ganham espaço pela proximidade do afago ao alcance da mão. Falo, principalmente, dos cães com os quais compartilhamos períodos da nossa existência e dos quais recebemos carinho, companhia e muita diversão. Eles se dedicam aos seus humanos com devoção, felizes simplesmente por seus donos existirem e ali estarem.

Os sentimentos de um cão são, ironicamente, uma das coisas mais humanas, doces e inspiradoras que pude aprender há pouco tempo atrás.

Por breves treze anos, adotamos um cachorrinho, chamado Dollar. De pelo longo na cor do caramelo, nariz de bolinha esponjosa, olhos vivazes lembrando as frutinhas do açaí, faceiro e independente. Ele não se considerava um cão, entendia ser um de nós, parte da família, ou talvez o contrário, que éramos a sua matilha, os seus familiares "diferentes", os seus “humanos de estimação”. Jamais tentamos treiná-lo, até porque isso seria inviável, considerando a sua forte personalidade, com vontade própria sobre todos. Todas as ordens poderiam ser descumpridas, se assim lhe aprouvesse. E o seu minúsculo tamanho não era empecilho para nos defender, com valentia, de provável ameaça. Somente o trovão e os fogos de artifício imprimiam-lhe alguns limites.

Ao lado de tudo isso estampava, sob todas as formas, a fidelidade e o amor incondicional. Amor escancarado na alegria, na empatia conosco, no companheirismo a toda hora, na proteção velada ou ostensiva, no apoio silencioso trazido pela aproximação sem ruído. Com ligeira inclinação do focinho, orelha ereta e olhos atentos investigava o que se passava com cada um de nós, e aí vinha, incontinenti, a solidariedade ou a cumplicidade, manifestadas com afagos gentis de leves arranhões das patinhas sobre os nossos pés no esforço para participar dos momentos de todos nós.

Em qualquer situação, ele entendia as minhas palavras, os meus comandos mudos, o meu silêncio, a minha ausência. Percebia qualquer alteração no meu semblante e esquecia-se de si próprio para me acompanhar, pela casa, 24 horas, visivelmente envolvido com o meu estar-bem, sem nada pedir, sem nada esperar... Sabia, como ninguém, se expressar com o olhar, com os suspiros, com o sorriso, com os balbucios da linguagem canina variando as entonações, conforme a emoção do momento. Transformava todo o seu corpinho em um potente radar para captar nossas reações e assim nos trazer o presente apropriado para a ocasião, como um rabo abanando em círculos, uma lambida mais longa, uma corrida elaborada ou um salto no colo sem licença prévia. A simples visão daqueles olhinhos súplices dissolvia minhas preocupações, suscitava minha paciência, aflorava meu alto astral, trazia de volta o encaixe no meu eixo.

Costumávamos compará-lo a um lorde, tal a elegância da performance conosco... desde que não surgisse um gato por perto a despertar o genuíno e nativo espírito do combatente de felinos disposto às vias de fato num eventual confronto com a caça. A energia vigorosa, o sorriso contagiante recolheram-se, unicamente, quando o coraçãozinho cansado avisou do risco fatal iminente e que havia chegado o instante amargo da temível e inevitável separação, que precisávamos nos despedir para a sua viagem sem volta. Inconformados, nós o cobrimos com um manto de amor e gratidão... para sempre. Ainda não cicatrizou, a saudade insiste em ser presente e muito me doeu escrever este texto até o fim.

Diz a cultura popular que quando se vai embora de um lugar, deixa-se um pouco de si nele e leva-se consigo algo dele. O Dollar me deixou o lembrete de que a vida é efêmera, me deixou um alerta de que precisamos viver o presente, o agora, com todas as forças. Ensinou-me que o querer bem, por si só, é suficiente e satisfaz, dispensa contrapartidas. Conseguiu me demonstrar que a confiança é a base da pura e irrestrita amizade. E, finalmente, me apontou a certeza de que tudo valeu à pena.

Foi uma presença que me desarmou a guarda, me confortou, serenou, animou e trouxe um sentido surpreendente a momentos que teriam passado sem anotar lembranças.

Pela experiência vivida com essa criaturinha extraordinária, é que aqui deixo o registro de que os animais são seres sencientes e, por isso mesmo, sensíveis ao sofrimento, e suas necessidades de bem-estar devem ser preservadas, protegidas. Fica, assim, a recomendação da posse responsável, revestida dos cuidados e deveres para com o animal de estimação, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na juventude e na velhice, na abundância ou na escassez, na vida até à morte.

Tenho em mente que cuidar do meio ambiente, dos organismos vivos e de nós mesmos é a nossa herança como inteligência racional, pois somos os responsáveis “conscientes” pela ordem e progresso da humanidade. E só assim, justificamos o merecimento de habitarmos este Planeta, onde cada partícula de matéria, cada molécula, cada sopro de vida, têm gravadas as impressões digitais do Criador.
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CRÔNICA 10

7 comentários:

  1. Seu conto fala diretamente com nosso subconsciente, levando-nos a crença no potencial de bondade e solidariedade. Fala do extraordinário poder de superação que tem a vida, da força com que ela reacende a esperança e o desejo de empenhar-se para amar e viver mais plenamente. Faz bem à alma. Deua esteja sempre com você.Parabéns!

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  2. Que felicidade você teve neste verdadeiro poema ao bichinho de estimação!Sabe, acho que nunca mais viveria sem um cão em minha companhia! Hoje tenho por companheira uma doberman totalmente preta que é um tesouro com que brinco todos os dias. A maior felicidade que temos é quando chega a hora do banho! Alguém (não me lembro) um dia escreveu que "Deus fez o cão dotado dos mesmos sentimentos do homem" por isso essa interação entre os dois, desde que haja realmente respeito mútuo. Você externou que os sentimentos do cão são praticamente humanos. Existem pessoas que conheço (e não raras) cujos sentimentos são mais aparentados aos dos jacarés!
    Tenho uma conhecida que, como eu, é apaixonada por cães. Num dia desses ela, vendo as reações da minha cadela, me disse que "Deus não concedeu o dom da fala aos cães pra não passarmos por constantes lições de vida e humilhações".
    Tudo o que escreveu, eu já imaginava ser de seu enlêvo poético, mas sua luz brilhou muito mais quando usou a expressão "humanos de estimação"!
    SENSACIONAL! Amei sua capacidade de nos levar a uma empatia com esses seres tão especiais!
    Você se supera a cada verdadeiro poema que nos oferece!

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  3. Regina,

    Parabéns pelo texto com o qual concordo plenamente pois tenho um cão de raça "SD" (sem definição), muito inteligente e muito querido. Até deixo aqui um poeminha (haicai) meu:

    conversa de amigos
    meu cão sempre querendo
    uma mão no pelo

    Abraços,

    Rosa

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  4. Suas cronicas, sempre estão a permitir uma reflexão ou até mesmo um processo regressivo em cada leitor. Se pudessem os homens exercitar, um décimo da sensibilidade e da percepção de um cão, não haveria, no mundo, tanta truculencia como a que diariamente presenciamos. Mais um belo texto. Carinho.

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  5. Bom, esse conto me tocou especialmente porque fui um dos humanos de estimação do nosso saudoso e amado cachorrinho Dollar. Um dia ele, contra a sua própria vontade, se despediu e partiu. Suas travessuras, latidos, chamados, carinhos, grunidos, lambidas e rosnados agora enternecem a vida dos nossos irmãos do "outro lado". Contudo, sua breve passagem pela minha vida me deixou mais marcas do que eu poderia imaginar. Como um mestre de moral irretorquível, me ensinou a amar sem esperar ser amado, me ensinou que a minha família merece meu irrestrito afeto e minha proteção. Suas lições sempre vem à minha mente quando lembro de sua simplicidade. Na verdade, um dia espero captar toda a pureza que ele tentou me ensinar.

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  6. Dona Regina, é um prazer passar por aqui e deixar um comentário no seu blog. Bem, nunca fui muito chegado a cães de estimação porque sempre tive medo de ser mordido. Mas numa coisa eu acredito, dizem muito por aí um tal de "mundo cão"...quando falam isso denotam traição, sujeira e tudo mais. Agora, não seria atribuir sentido negativo a um mundo que, por ser cão, deveria ser de alegrias? Fica aqui a minha singela contribuição e meus parabéns pelo blog.

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  7. Querido Manoel,

    Obrigada a você e a todos pela participação aqui.

    Quero acreditar que o dito "mundo cão" se refira ao tormento sofrido pelos cães quando em abondono, sem um lar. Outras expressões semelhantes como "ruim pra cachorro" são também usadas, a meu ver, com equivalência à cruel realidade desses indefesos animais, ao serem desprezados à própria sorte, passando por terríveis apuros até sucumbirem em total desamparo.

    Por outro lado, existe, também, a inapropriada denominação de "cachorro" para atribuir a alguém uma conduta desabonadora. Nesse aspecto eu discordo e aponto a falta de respaldo para tal impropriedade, pois a natureza canina não desenvolve as energias negativas emanadas pelos racionais, como o ódio, a inveja, a má-fé... Eles apenas se dispõem a servir, fielmente, sem cobranças.

    Espero ter conseguido responder sua indagação, por sinal, muito interessante.

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