sábado, 15 de agosto de 2009

CASO INSÓLITO


Num shopping movimentado da minha cidade, um compromisso me aguardava no complexo comercial, computando significativo retardo no meu horário de chegada. O marcador de horas do celular insistia em distanciar rapidamente a tarde já consumida para realçar o meu atraso.

Seguindo uma previsão calculada para cumprir meu intento, pressionei o botão do elevador com pressa. Três adolescentes entraram logo atrás. Ao fechar a porta, estávamos os quatro civilizadamente juntos quando, de chofre, começou uma sessão de pancadaria entre os três garotos: duas mocinhas e um rapazinho bem crescidos. O rapaz era golpeado duramente pelas meninas com socos e pontapés violentos. Defendia-se protegendo o rosto com as mãos, virando a face contra a parede, encolhendo o corpo e enterrando a dignidade peito adentro. As mochilas das garotas converteram-se em ferozes armas de combate contra a cabeça, as costas e as pernas da vítima. Os murros ressoavam pesado no metal da parede do elevador. Tudo acontecia sob a moldura de abafado silêncio. Fiquei petrificada. Eu me senti uma colina desaterrando em queda livre sobre um rio de sobressaltos. O susto me sugeria terrorismo, seqüestro, ação de quadrilha... O tempo parecia estar do avesso, pois o relógio engoliu muitos séculos em alguns segundos. A claustrofobia e outros parentes dela se refestelaram no meu fôlego. O confinamento com os potenciais psicopatas me apontava o risco de ser a próxima na lista de esquartejamento. Finalmente o elevador se recobrou da hibernação de mil anos e sinalizou a abertura da porta. O garoto, ofegante, passou os dedos arrumando os cabelos, as meninas recuperaram a postura e saíram abraçadas e rindo. Mas os olhos do rapaz bem sabiam onde foram parar as dores. Atordoado, carregava na fronte a marca de dias menos felizes. Levava nas mãos apodrecidas pelo medo o peso de uma sentença. Não consegui decifrar a razão daquele procedimento, mas o evento acelerou bastante o ritmo do meu sistema respiratório. Precisei me recompor aplicando minhas técnicas de relaxamento para resgatar a serenidade e dado o avançado da hora, optei por adiar o compromisso.

Mas, antes de sair do shopping, resolvi passar pela praça de alimentação e fazer um lanche, enquanto utilizava a rede para navegar na internet pelo notebook. Aguardava a vinda da minha guloseima favorita, absorta na minha tela quando chegou um grupo de jovens barulhentos que se distribuíram em mesas ali próximo. E entre eles, estavam, para meu espanto, os três personagens do elevador. O episódio começou a me interessar. Discutiam sobre a perda de algum prêmio ou benefício em alto valor financeiro por negligência ou culpa de alguns membros daquela ruidosa equipe. Um dos réus na berlinda era justamente a vítima do caso insólito de minutos antes. O líder da equipe esticava a mão, enquanto rugia as falhas do acusado, e acertava um “tabefe afetuoso” na cabeça do rapaz com os cumprimentos dos demais. Alguns outros deixavam uma “lembrança de protesto” com riscos de canetas ou arremesso de batatas fritas nas roupas e nos brios do infeliz. Os mais afoitos assobiavam uma rajada de indelicadezas. Parece que o culpado estava sendo executado, recebendo as penas pelo julgamento e condenação do inflamado grupo.

Acompanhando, de soslaio, as excentricidades da reunião, lembrei de uma fábula antiga descrevendo uma assembléia na marcenaria:
- Conta-se que certa vez, numa marcenaria, uma estranha assembléia foi convocada por um grupo de ferramentas com o objetivo de acertar suas diferenças.

Um martelo assumiu o posto da presidência, mas os participantes lhe exigiram a imediata renúncia. A razão? Produzia desmedido barulho, e depois de tudo, se utilizava de todo o tempo disponível para golpear. O martelo declarou-se culpado, mas impôs que também fosse expulso o parafuso, alegando que tal companheiro dava muitas voltas para conseguir algo. Diante da denúncia, o parafuso reconheceu a falta, mas por sua vez, ordenou a expulsão da lixa. Atacou o maltrato impingido pelas folhas abrasivas arrancando farpas dos outros, ou seja, muita aspereza no tratamento com os demais, resultando em atritos constantes. A lixa anuiu, com a condição da expulsão do metro que sempre media os outros segundo a sua medida, considerando-se isento de falhas.

Nesse instante, irrompeu o marceneiro pela sala à procura das luvas de proteção. Colecionou todo o material de trabalho e iniciou pacientemente a sua tarefa. Serviu-se, com esmero, de todos os apetrechos da oficina. Utilizou, por vezes, o martelo, a lixa, o metro e o parafuso. Em curto tempo, a tosca madeira tomou formas magníficas e se transformou numa refinada peça de mobília.

À noite, quando a marcenaria se recolhia para o descanso, uivando alguns receios e reticências, a assembléia restabeleceu a discussão. Reabrindo a sessão, o serrote tomou a palavra e declarou: “Senhores, ficou demonstrado que todos temos defeitos, mas o marceneiro trabalha com nossas qualidades, com nossos ângulos mais valiosos. Assim, não levantemos nossos aspectos negativos e concentremo-nos somente nos pontos positivos”.

A assembléia admitiu, por fim, que o martelo possuía grande força, o parafuso unia e fixava superfícies, a lixa tinha a especial propriedade de limar e afinar imperfeições, e o metro se mostrava preciso e exato, sempre. Redescobriram, então, o valor de uma equipe capaz de produzir móveis e objetos de qualidade, de expressar a arte na madeira e obter resultados gratificantes. Experimentaram, finalmente, o prazer e a euforia pela oportunidade de trabalharem juntos.

Acontece o mesmo com os seres humanos. Basta examinar as questões de relacionamentos e comparar: quando se busca defeitos em alguém, a convivência torna-se tensa, improfícua e negativa, e no sentido oposto, quando se busca com sinceridade os pontos positivos nos outros, vicejam os melhores triunfos humanos.

Notar e anotar defeitos é extremamente fácil, qualquer pessoa pode fazê-lo. Porém, descobrir qualidades... é próprio dos sábios! Catar predicados ou atributos nos outros é estratégia eficaz para um rico e saudável trato diário, íntimo e mútuo, assim entendo eu.

Seguindo um impulso irrefletido, escrevi a fábula num guardanapo de papel e deixei o “souvenir” com o garçom para ser entregue, sem identificação do remetente, ao exaltado representante do sinistro agrupamento, tão logo eu tivesse me afastado do recinto. Saí bem depressa dali, remoendo a sensação de ter me excedido na intromissão e o pior, seguramente em vão. A idéia era, simplesmente, deixar um sutil lembrete de que a atitude abusiva do grupo tribalista estava sendo testemunhada. Ao dar vazão ao sentimento de indignação quando assisti a manipulação dos mais fracos por forças opressoras me expus a riscos sem medida. Afinal, argumentava comigo mesma, não se pode consertar o mundo. Mas agora estava feito, segui em frente e, levantando a cabeça para o alto, deixei os pingos de chuva do estacionamento pernoitarem no meu rosto e lavarem a minha inquietação.


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CRÔNICA 21
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9 comentários:

  1. Impossível deixar de me regalar com mais esta obra sua, minha amiga!
    Eu desconhecia esta sua faceta de exímia narradora, com uma também competência de descrição de cenários e sentimentos aflorantes!
    Seu lado poético, sempre me encantou, mas este seu outro dom me deixou mais e mais admirada de sua capacidade literária e competência.
    A fábula que narrou é uma das preciosidades para quem quer administrar grupos ou melhor, equipes.
    As teorias modernas provam que trabalhos em equipe surtem melhores efeitos e resultados do que os elaborados individualmente, com extravasos de dotes e capacidades pessoais. (a isto eu chamaria de trabalho em bando).
    Tenho que externar que trabalhos em equipes podem (como quase sempre o fazem) surtir melhores efeitos e aprendizagens em grupo também. Mas isso serve para o bem e para o mal também. É óbvio que grandes assaltos também são planejados e atuados como verdadeiras equipes.
    ... descobrir qualidades... é próprio dos sábios! Catar predicados ou atributos nos outros é estratégia eficaz para um rico e saudável trato diário, íntimo e mútuo... – fantástico!
    Você tinha que deixar uma pérola no colar desta narrativa!
    Confesso que eu estava morta de saudade de ler as coisas lindas que escreve! O fim de semana fica meio “oco” quando não temos o presente do que escreve.
    Ouvi, certa vez, do Padre Fábio de Mello, que artista é aquele que consegue extrair muitas de horas de apenas um segundo! Ele vê o que o resto do mundo não consegue enxergar nem descrever e quando consegue transmitir, são horas e horas de meditação e refazimento de conceitos.
    Saiba que você está perfeitamente incluída nesse grupo, minha amiga!
    Adoro você! Mil Beijos

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  2. Olá, que lição bacana! Despido da grandeza de sentimento que a sua sensibilidade traduz, também penso que um grupo em harmonia conduz ao objetivo, afinal, em virtude do nosso estágio evolutivo, ainda estamos bem longe de nos livrarmos de nossas faces indesejadas tal o martelo, o parafuso, a lixa e o metro.
    Espero que os meninos tenham recebido o recado e refletido, sem esquecer que adolescentes adoram o divertido "espancamento" do causador do insucesso, o que chamam atualmente de "mala". Bom, fico por aqui desejando dias maravilhosos para você e claro, parabéns pela sensibilidade, criatividade e sofisticação, já usuais, na construção do conto. Beijos sem fim!

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  3. Mais uma preciosa reflexão para tornar melhores os dias de seus humildes leitores!
    Se pudéssemos analisar a vida daquele jovem ditador, provavelmente encontraríamos situações que afetaram, de alguma forma, a concepção que ele tem de si, sua auto-estima, etc. Isso é o que acontece com muita gente, mas o problema é exatamente o que as pessoas fazem para serem admiradas, estimadas ou respeitadas. Infelizmente, a maioria delas supre esta carência diminuindo quem está ao seu redor, procurando defeitos, debilidades e fraquezas, com o único objetivo: se sentir melhor que o outro.
    É vergonhoso, mas é a realidade.
    Só alguém com a sua sensibilidade para enxergar além de uma capa de maldade e ajudar um jovem que é apenas um ser humano precisando mesmo é de uma boa dose de aceitação e amor...

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  4. Sabe G, o corpo humano, tão maltratado dia a dia, não só pelo calor dos veiculos sem ar condiciondo, como também pela fuligem que sopram esses benéficos maltratantes, benéficos porque úteis ao ser humano, mais ainda, pelo tempo e preocupações a que está submetido diariamente. Máquina perfeita de funcionamento inigualável. Contudo, sujeito está à desarranjos, digamos, pela curiosa natureza de seus órgãos, os quais, em sua totalidade, brigam para se tornartem mais importante. Veja. Em uma lanchonete, posta à mesa uma "saborosa bola" chamou atenção dos olhos de um frequentador. Isso, fez com que os dedos da mão pegassem uma fatia para leva-la à boca que imediatamente a degustou e a engoliu. Empanturrado com a bola, sentiu-se mal o frequentador, permitindo aos orgãos a abertura de uma discussão sobre qual o mais importante. Os olhos porque viram? as mãos e dedos porque levaram pedaços à boca? Esta porque degustou? O estomago porque armazenou? Ou o porteiro (conhecido como alfarrabus)que se fechou e só abriu a passagem quando os demais órgãos reconheceram sua importância? Se percebermos a importância que cada um de nós temos, nas atividades que exercemos, por certo, reconheceremos o valor de cada ser humano para a somatória de um todo, incluindo-se, nesse todos, as árvores, as plantas e os animais.
    Mais um belo conto. Tá dominado. 10. P

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  5. Só passei para deixar um recado: o de que seu conto me ajudou muito hoje no trabalho, ou seja, vim agradecer pela belíssima lição. Você é iluminadíssima. Bjs.

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  6. Bom conto, mas amei a fábula, a historinha das ferramentas. Muito interessante mesmo. Parabéns.

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  7. Oi Regina,gostei do conto e especialmente da fábula, com possibilidades de diversas aplicações. Também escrevo crônicas e contos, os quais estou postando num blog recente que criei pelo Blogger. soube a respeito do teu blog por minha filha, Ester Dias Amaro, que trabalha no T.R.T. e te conhece. Já adicionei o "Contos de Acasos" nas páginas preferidas do meu navegador "Google Chrome" e sempre estarei visitando por aqui. Gostaria de receber uma visita sua em meu blog. Anote aí:

    www.floresta-viva.blogspot.com.

    É um blog ainda novo e estou adicionando postagens aos poucos, geralmente crônicas. Os contos deverei postar também, mas alguns possuem diversas páginas. Estou analisando qual o melhor sistema para disponibilizá-los para uma leitura confortável. Gostei do modelo do seu blog! Você utilizou algum dos modelos do Blogger, criou do "zero" ou importou de alguma coleção de Templates? Gostaria de saber, pois estou redefinindo as opções do meu blog e também iniciando a criação de um site de negócios de Marketing e Network. Vamos trocar idéias?

    Um abraço de Sérgio Aparecido Dias.
    E-mail= prsadias@hotmail.com

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  8. Sérgio Aparecido,

    Obrigada pela visita ao blog "Contos de Acasos" e pelas gentis palavras.

    Respondendo à sua pergunta quanto ao layout do meu Blog, eu selecionei um modelo simples dentre os disponíveis no Blogger e personalizei os campos segundo os meus critérios.

    Visitei o endereço que me enviou e considero louvável a sua iniciativa em tratar de assuntos amazônicos. Parabéns, vá em frente e sucesso!

    Fique à vontade para escrever e comentar. Será um prazer para mim.

    Abraços,

    REGINAFalcão
    contosdeacasos@gmail.com

    14 de Setembro de 2009 10:56

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  9. Otimo o que voce fez. Julgamos muito as pessoas pelos atos, pelos gestos. Parece fácil reconhecer os erros, porém é difícl demonstrar que nos enganamos muitas vezes. Muito sábio de sua parte mostrar, (mesmo que não aceite) sua indignação com aqueles jovens, embora estejam em fase de aprendizado na vida tem comportamento com se fossem os donos da verdade. Em perceber essa situação nova ou problema, voce recorreu à sua imaginação, a qual lhe forneceu as hipóteses, isto é, os possíveis meios de mostrar sua desaprovação. Parabéns, continue assim

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REGINAFalcão