terça-feira, 25 de novembro de 2008

PERCA UM LIVRO DO MODO CERTO


“Perca um livro!” Essa é uma campanha já existente aqui no Brasil a pleno vapor. Trata-se de uma prática divertida de perder propositalmente um livro em um lugar público para que um terceiro desconhecido o encontre, leia seu conteúdo e o “perca” outra vez, reiniciando, assim, o ciclo. Chama-se BookCrossing e vem da idéia de promover o intercâmbio de livros partindo dos quatro cantos do globo terrestre para transformar o Planeta em uma grande biblioteca. Nos Estados Unidos e na Europa essa técnica de incentivo à leitura, foi rapidamente absorvida e disseminada com êxito pela população, criando uma grande rede de comunicação entre os amantes dessa arte.
Castro Alves - nosso ardoroso poeta baiano – ilustra o conceito, magistralmente:

“O LIVRO E A AMÉRICA”
Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É gérmen que faz a palma
É chuva que faz o mar.
Pois bem, imbuída do espírito dessa campanha, tomei a iniciativa de decolar essa prática por minha conta e risco, considerando que inexiste, na minha cidade, um sistema planejado de controle do BookCcrossing, a exemplo de Brasília e outras capitais. Ansiosa para iniciar o processo, segui à risca os procedimentos preliminares exigidos no site gerenciador dos "livros perdidos"
http://www.livr.us. Selecionei algumas preciosas obras de alguns Titãs da nossa literatura, a título de doação, e programei a aventura da distribuição no caminho do meu trajeto diário. O primeiro ponto previsto seria uma praça onde velhinhos aposentados costumam se reunir diariamente no final do dia.

Atravessei a imensa praça deserta até um dos bancos à sombra, sob uma árvore Flamboyant e comecei a “perda” com o meu livro preferido. Na pressa, deixei de considerar as condições de segurança para o livro ser “descoberto” e encontrado. Quase chegando no carro, me ocorreu que pudesse chover e danificar tão importante volume. Resolvi voltar e resgatar o livro para local mais seguro. Dei alguns passos de volta e parei... estarrecida: a última folha inteira do livro se encontrava entre as presas de um cachorro grande com ares de “dono do pedaço”. A praça estava alagada de papel picado e o meu semblante derramando desolação. Acredito que a máquina de triturar papel sentiu o cheiro da minha indignação, pois, por um instante, levantou o focinho e me encarou com olhar inquiridor, testa franzida, baba escorrendo mandíbula abaixo... certamente indagando qual o meu interesse naquela festa particular (leia-se barbárie).

Sofro de uma incorrigível afeição por cães, sem distinção, mas, naquele momento, não me consta nenhum registro de simpatia pelo sabotador de campanhas humanitárias.
De toda experiência (boa, má ou nem tanto) eu me cobro extrair um aprendizado. E naquele dia eu aprendi – aliás, aquele enorme farejador de papel escrito me ensinou – a fórmula indicada para “PERDER O LIVRO DO MODO CERTO”.
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CRÔNICA 4

7 comentários:

  1. Parabéns, mais uma vez, pela sua nobreza de espírito! Saiba que não é por causa de um simples caso de cachorro que acabou por destruir um livro que voce tem que desanimar. Afinal, pelos tantos que voce ainda pode "esquecer", com certeza vão acontecer coisas piores com aninais racionais, como desdenhar de uma obra magnífica, acreditar que alguem deixou um livro ali porque não tinha a devida relevância, ou o pior, levar pra casa simplesmente pra colocar numa estante, tal qual um troféu achado e não conquistado! Continue se sentindo nobre no que faz pois "animaizinhos" existem por toda parte. Você é magnífica!

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  2. Apesar dos obstáculos, porque brasileiro não é mesmo fã da leitura, e quem gosta tem amor aos seus livros. Mais vale a pena, pois essa sua idéia pode motivar o interesse das pessoas, pois sempre haverá quem goste de lê. Parabéns, e que Deus lhe ajude.

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  3. Nossa..Que levado esse cachorrinho né? Se ao menos ele soubesse ler!! Não dá para ficar chateado com ele. Cães são assim mesmo e suas travessuras sempre me enternecem. Espero que a idéia de "perder" um livro pegue. Aliás, parabéns pela iniciativa. Vou tentar "perder" um livro legal por aí também (junto com um osso ou biscoito canino só para preservar a integridade do livro!!)

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  4. Olá, dona Regina! Sou estagiário do Dr. Ulysses, fiquei curioso pra ler o blog da senhora! Que pena perder um livro assim, sou muito ciumento com meus livros.. mas é uma iniciativa bem interessante, gostaria que as pessoas tivessem mais desse espírito. Afinal, a pergunta que não quer calar: qual era o livro??

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  5. Livro, seja ele qual for,
    Deixado em qualquer lugar,
    Sempre encontrará um leitor.

    Sem reclamar das mãos que o folheiam,
    Que o guardam, o rasgam ou o atiram para o lado,
    O livro mesmo sofrendo,
    Sempre contribuirá para o aprendizado.

    Seu conto, por certo, contribuirá para aqueles que o lerem, a se engajarem na difusão do ensinamento a outras pessoas.

    Mais uma vez, parabens.

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  6. Obrigada, Sérgio, por participar dos comentários.
    Respondendo sua pergunta, o livro "perdido" era Antologia Poética - Vinícius de Moraes, em brochura, primeira publicação. Desconheço se ainda existe à venda, pois foi relançado, com nova seleção dos poemas desse que foi um dos poetas de maior influência na literatura e na música popular brasileira do século XX.

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  7. Nossa, me viciei nas entrelinhas de cada história...apesar de amar animais, principalmente cães, já que tenho um, eu também ficaria triste se ocorresse esse fato...Aproveito para parabenizá-la mais uma vez. Ganhou uma leitora assidua

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REGINAFalcão