sábado, 6 de dezembro de 2008

ASSOMBRAÇÕES DE ONTEM E DE HOJE

Meu pai tinha a propriedade de contar histórias com tal vivacidade, que deixava no ouvinte o efeito colateral das sensações “vividas” em cada narrativa. Mal caía a noite, nos finais de semana, e já os vizinhos e compadres se aproximavam para a habitual confraternização. Entre largas risadas, partidas de dominó e quitutes caseiros, a conversa seguia animada até altas horas e culminava inevitavelmente numa elaborada e intrigante história de assombração.

Os adultos tinham a cautela de “recolher” as crianças pela censura do horário e do conteúdo impróprio (assustador). Movida pela curiosidade, eu conseguia burlar a vigilância e esconder meus tenros cinco anos de idade embaixo da mesa, com a cumplicidade de uma longa toalha de linho. Imóvel, para não ser descoberta, abraçando os joelhos, aguçava os ouvidos.

Era estonteante ouvir – na voz grave e suave do meu pai - o relato dos detalhes que iam tomando forma e davam vida aos personagens debaixo do nosso nariz. A entonação certa nas palavras e engenhoso arranjo das cenas garantiam os efeitos especiais na nossa mente. Essas histórias - na versão do meu pai - guardavam o suspense na sugestão, nada explícito, por isso o mistério se tornava tão atraente! Todos ouvíamos segurando a respiração, em absoluto silêncio, inebriados num misto de pavor e prazer. Ao final da sessão, os retirantes se agrupavam por... “precaução” para o retorno às suas casas ali pertinho.

A minha participação nessa série acabou quando o meu esconderijo foi revelado acidentalmente. No meio do mais aterrorizante conto, a luz desligou em todo o bairro e a escuridão ficou de mãos dadas com o meu medo. Assustadíssima, na clandestinidade, calafrios navegando pelas minhas costas, apertei as pálpebras com força para escapar do espanto, mas resolvi abrir os olhos no exato momento em que um infeliz vaga-lume atravessa a minha frente, materializando a minha imaginação com “pisca-piscas” ainda desconhecidos para a minha pouca idade. Aquilo foi demais até para a minha suposta “armadura” de coragem. Nesse instante se ouviu o som de um pequeno volume tombando sob a mesa: era eu, perdendo os sentidos... e o direito aos próximos capítulos.

Estamos em novos tempos. Das ingênuas histórias de assombrações do passado restam apenas imagens esmaecidas de fantasmas inofensivos e figuras lendárias desbotadas a me trazer saudade dos bons tempos. Agora, a meu ver, as pessoas se deparam, a todo instante, com assombrações de verdade, equipadas com tecnologia de ponta, GPS, armas de guerra, e sofisticado aparato eletrônico, gerando o pânico, distribuindo o terror ante a impotência de todos.

Posso apontar algumas das que realmente me assombram, na atualidade:

- São a violência e a criminalidade, sob todas as formas, saltando os muros das residências, saqueando a tranqüilidade de qualquer um, invadindo a rotina das pessoas, agora, reféns do medo, inseguras com a própria sombra.

- É a poluição dos rios por lixo doméstico e industrial, colocando em risco os ecossistemas e afetando a saúde dos moradores circunvizinhos. É o bombardeio de gases poluentes derivados da queima de combustíveis fósseis, na atmosfera das grandes cidades, deixando em seu rastro as doenças respiratórias nos mais fracos (idosos e crianças).

- São as quadrilhas na Internet monitorando os clicks dos mouses e estendendo os seus tentáculos até as contas bancárias dos internautas desavisados. São os softwares camuflados que se alojam nos computadores, nos moldes de poderosas ervas daninhas, à espreita de senhas e arquivos pessoais, sangrando a vítima de forma anônima, cruel e irreparável.

A lista é grande. Não me cabe aqui exauri-la, mas ainda tenho esperança de sairmos da trincheira para a liberdade, com qualidade de vida, ainda que a partir das gerações vindouras. Eu acredito que o instrumento para exorcizar as maléficas assombrações modernas está na educação. Educação em todos os níveis, em todos os planos, em todos os sentidos, a começar pelo núcleo familiar: educando, ensinando, orientando, dando o exemplo, como dito no provérbio “Educai uma criança e não precisareis punir um homem”.

Assim, faço minhas as palavras do meu amigo e poeta Ely Guerra dos Santos:

Convoco a todos a fazer justiça com as próprias mãos:
com cada palavra escrita ou dita,
que haja a justeza e a justiça
dos que se dedicam à busca da equidade.
Possamos fazer da justiça o nosso ideal de perfeição
e exorto para que atendamos ao chamado do poeta que nos diz:

“Para ser grande sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim, em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”

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Em memória do meu querido pai e inesquecível amigo
João Pessôa da Silva
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CRÔNICA 6

9 comentários:

  1. Lindo seu poema! Fazme lembrar uma crônica de uma escritora mãe de uma juiza amiga minha que alertava: "éramos felizes quando nossos corações palpitavam pelo medo, mas estou preocupada que os corações dos homens involuam para não mais palpitarem sob nenhum pretexto, nem do amor, pois estão ficando cada dia mais empedernidos pelo sarcasmo que o mundo e a vida lhes impõe." A sua crônica tem um alinhavo impressionantemente comparativo! Parabéns, como sempre um primor!

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  2. Bom, eu estava esperando já um tanto impaciente pelo novo conto. Por favor, não nos deixe, leitores, sem contos por muito tempo, pois venho diariamente conferir o blog à procura de novas emoções. Esse que comento, além de me levar também aos meus tempos tenros, quando insistia em descobrir o mundo com os meus olhos, ainda que desafiando a orientação paterna, contextualizam as "assombrações" decorrentes da falta de amor no lar, na família, na escola e nos demais ambientes que circundam a vida de uma criança. Uma criança que recebe da vida o desprezo dos maus pais e da sociedade, entrega-lhes a marginalidade como efeito. Por conseqüência, sofremos a insegurança, a violência, e, por fim, o medo; infelizmente tão constantes nas nossas ruas. Parabéns mais uma vez pela belíssima história.

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  3. Que maravilha! Seu conto nos trás a nostalgia de uma infância sem os problemas de hoje, a importância da família. Agradou-me a sngeleza do texto, bom de ler e guardar para as futuras gerações. Parabéns pela sua sensibilidade e arte, que soube combinar tão bem, para oferecer aos seus leitores momentos de emoção.

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  4. Regina,

    As memórias da infância são sempre ternas mesmo quando o assunto é assombração. Gostei da prosa introdutória. Infelizmente as assombrações de hoje estão cada vez mais palpáveis como sua crônica nos mostra.

    Parabéns!

    Rosa Clement

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  5. O conto faz retornar ao passado de lembanças mil. Seus contos, sempre estão a deixar os leitores em regresso às suas infâncias trazendo aos dias de hoje, doces lembranças ao ponto de esclamarem - Eramos felizes e não sabíamos.
    Lembranças,
    Das noites de lua cheia,
    Da chuva da madrugada,
    Do cantar do galo,
    Dos amigos da escola,
    Das reuniões dos vizinhos,
    Das brincadeiras de roda,
    Das noites de fogueiras,
    Das fantasias de carnaval,
    Do matar do judas,
    Das reuniões e gargahadas,por contos de assobrações.

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  6. Gostei da sua crônica. Muito bem escrita. Mas ficou uma dúvida aqui com os meus colegas: a sua história não é com e = estória?

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  7. Olá, Aline! Obrigada por participar com a pergunta.

    Algumas pessoas que leram o blog também me questionaram pessoalmente sobre a grafia da palavra "história". Respondi que estava segura quanto ao emprego, mesmo se tratando de um simples conto.

    Várias são as fontes entre os gramáticos recusando a forma com "e". Posso deixar aqui um resumo sobre o assunto, extraído da própria Internet, justificando a permanência da palavra com "h":

    Site: NOSSA LÍNGUA_NOSSA PÁTRIA
    http://www.nlnp.net/duv-d-f.htm

    - ESTÓRIA ou HISTÓRIA?
    As palavras "estória" e "história" são aceitas por diversos autores, com significados distintos:
    - estória: exposição romanceada de fatos imaginários, narrativas, contos, fábulas;
    - história: para dados históricos, que se baseiam em documentos ou testemunhos.
    Estas duas palavras constam do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras.
    Mas o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa recomenda simplesmente a grafia história, nos dois sentidos. E o dicionário de Caldas Aulete refere-se à forma estória como um brasileirismo, isto é, apenas um aportuguesamento da forma inglesa "story".

    Espero ter respondido sua dúvida. Volte sempre.

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  8. Você escreve muito bem. Adoro ler crônicas. São como conversas mais elaboradas...faço muito minhas as palavras de outros cronistas. Adoro ler o que EU mesmo gostaria de ter dito e, JUSTIÇA, de fato, combina com Justeza! Parabéns a vc e seu amigo.

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  9. Psico-Alvo
    Como o amor dos pais pode arruinar a relação dos filhos
    O que passo a relatar não é ficção, infelizmente, antes fosse. Aconteceu comigo no início deste ano... acredite: pode vir a acontecer com você.

    Venho de uma família classe média. Sete irmãos, 4 homens, 3 mulheres; um pai rigoroso, uma mãe amável e protetora. Sou o mais novo de todos. Alvo de algumas hostilidades por ter sido o último a “roubar” a cena e atrair a atenção e cuidados. Declaro-me inocente quanto a isso!
    Esse fato aparentemente tolo e totalmente fora do meu controle – ser o mais novo – viria a ser o meu inferno no futuro. Por ser o bebê da família, as atenções, ao menos as últimas delicadas atenções eram todas para mim. Lembro-me de meus irmãos tentando atrair a atenção de meus pais, mas bastava eu fazer um sonzinho que todos já corriam para ver o “raspinha de tacho”. Minha mãe me teve aos 42 anos! Natural o cuidado exagerado.
    Cresci nesse clima de atenção total e, claro que abusava, vez por outra, disso tudo. Mamei até os cindo anos de idade. Édipo? Não, não creio. Após anos de terapia descobri que era o gosto do leite mesmo. Lembrem-se que as mulheres japonesas amamentam seus filhos até bem tarde.
    Nossa, que criança insuportável eu devo ter sido, não? Sabe que não? Por não precisar chamar a atenção dos meus pais, fiquei independente cedo! Fui um dos primeiros a viajar sozinho, a fumar, a beber na escola e acreditem a TRABALHAR! Sim, sempre quis ser financeiramente independente. Dei aula aos 18 anos de idade.
    Também fui vegetariano, engordei, emagreci, fiz Yoga e me estabilizei. Já com 25 estava, digamos, voltando de Woodstock e indo para o mundo dos cursos e concursos.
    Falecido meu pai, meus irmãos – aqueles que lutavam pela sua atenção – foram à forra. Nunca pensei que eu os incomodava tanto! Uma verdadeira Catarse coletiva foi feita. Eu tinha sido culpado de tantas coisas – reais e imaginárias – que corri, LITERALMENTE, para o terapeuta.
    Obtive o apoio necessário: um laudo. Algo que me tranqüilizou: as palavras melhores de se ouvir à época: “Você não tem culpa de nada”. Respirei fundo e voltei para o seio de minha transtornada família.
    Exatamente 10 anos depois, minha mãe fica doente e, agora, esses mesmos irmãos agiram de forma mais vil ainda: acusaram-me de agressões, furto, tudo. Minha mãe sobrevive e está saudável novamente. As máscaras caíram: meus irmãos não cresceram. São adultos na idade e têm suas profissões, mas não amadureceram; são criancinhas perversas querendo atenção. Eu ainda sou o motivo de “alienação” parental para eles. Eu sou o culpado pelo desamor, Eu sou a Geny do fracasso familiar.
    De volta ao terapeuta. Palavras mais doces ainda: “Você não tem culpa de nada”. Acrescidas de um elogio: “você fez por onde. Você se enfrentou; eles, não”.
    De zero a dez, fico no 1,78 em qualidade como ser humano. Preciso de umas 800 encarnações, mas nesta aqui estou fazendo de um tudo para evoluir e assumir toda a minha culpa. Já briguei, já trai. Isso tudo foi escolha e culpa minha. Mas ter nascido por último, não.
    Ah, como é bom saber quando e onde erramos. Errei muito e sei que meus pais erraram ao dar tratamentos diferenciados. Criaram pessoas neuróticas. Algumas se trataram;outras, não. Escolhas, sempre as escolhas.
    Pais, irmãos, amigos, pensem antes de fazer DO outro o seu inferno. O nosso inferno, acredito eu, está em atribuirmos aos outros o que não aceitamos em nós.

    P.S. Não culpo ninguém. Todos adultos e já sabedores de seus transtornos devemos procurar a ajuda necessária.
    Vou correr, tenho terapia agora.
    Beijos.
    El Santos.

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