sexta-feira, 20 de março de 2009

ANJOS DE MEIA-IDADE


Por acaso, eu vi, recentemente, na Internet, um outdoor onde um grupo de senhoras avaliza a seriedade de uma propaganda de turismo na Argentina. 

Tenho associada à figura feminina argentina “na melhor idade”, a idéia de solidariedade à toda prova, melhor dizendo, a prática de dar uma "mãozinha" na hora do “aperto” de um semelhante. Esse foi um dos legados deixados por minha mãe e faz parte dos meus hábitos, incorporados por osmose, pela convivência com ela. Certamente, por isso, eu tenha me identificado rapidamente com as gentis mulheres argentinas que cultivam, num circuito silencioso, o costume de ajudar, naturalmente, de forma espontânea e desprendida.

Assim digo, porque tive a melhor impressão do trato e da experiência vivida com essas ladies dos nossos tempos. Intensas, elas estão presentes e atuantes, como cidadãs e como profissionais em pé de igualdade, nos setores público e privado, nas ruas, nos shoppings, na vida que corre a qualquer tempo: no dia que hospeda a chuva ou na noite que apaga o céu.

Alguns episódios, que agora passo a desfiar, me agraciaram com o calor afável dessas distintas criaturas e carimbaram na minha mente boas recordações daquelas paragens na minha passagem por lá.

Naquele começo de tarde eu tencionava ir a um grande shopping da cidade para comprar alguns livros, almoçar e retornar a tempo para o restante dos compromissos. Era hora do almoço. Na praça de alimentação, um oceano de mesas ocupadas, nenhuma vaga à vista. De salto alto, com a bandeja do almoço nas mãos, além da bolsa pesada presa ao ombro e uma fome a comer-me o ânimo, dispunha de pouco tempo para o horário da refeição. Dei três passos, depois de receber o pedido, e minha sandália desatou o laço no tornozelo me impedindo de prosseguir para lugar nenhum. Nenhum aparador por perto, nada, nem ninguém disponível.  Enquanto meu cérebro rastreava uma solução, uma senhora, num sofisticado casaco, surgida não vi de onde, com o maior sorriso a tiracolo, estendeu as mãos para segurar a minha bandeja de modo que eu pudesse amarrar novamente o sapato e assim ser livre novamente para ir e vir. Quase não tive tempo de agradecer, porque saiu tão rápido quanto chegou.

E lá estava eu à procura de um lugar para fazer uma simples e ligeira refeição. No meio da multidão de cabeças, alguém se levanta e desocupa uma mesa distante de onde eu estava. Apresso o passo na direção da mesa, com a pretensa idéia de alcançar a vaga. Eis que, de repente, uma senhora de cabelos impecavelmente prata, almoçando na mesa vizinha com um grupo de executivos, deposita a bolsa e a pasta na cadeira que tinha acabado de ficar vazia. Certa eu estava, que o meu semblante faminto havia sinalizado visivelmente a intenção de para ali me dirigir. Parei, já descrente de conseguir qualquer espaço em curto tempo, quando a elegante senhora levantou o braço e acenou me chamando com toda a simpatia e graça na ponta dos dedos. Fui até ela e recebi, com grande conforto, a notícia de que a vaga era justamente pra mim; ela havia caucionado o lugar, exatamente, para que eu ali chegasse.

Dias depois, num outro shopping de grande porte, havia me programado para fazer o câmbio e retornar, às pressas, para as atividades da tarde. Tudo transcorrido a contento, resolvi passar no toalete para molhar o rosto e afastar eventual sonolência. Ao abrir a torneira, acidentalmente, um fortíssimo jato de água galopou na palma da minha mão e saltou sobre mim, me afogando os brios, encharcando a minha roupa e me alagando de aflição. Quando abri os olhos inundados de pasmo, a senhora uniformizada que vistoriava o recinto, com os grisalhos assumidos e meticulosamente arrumados num coque, sem nada me perguntar, desenrolava longas seções de papel-toalha para absorção do extenso molhado já pingando agonia. Calmamente, me deixou comprimindo a área ensopada, enquanto foi em busca de toalhas e outros apetrechos de socorro para um reparo razoável do acidente, até que eu me tornasse “apresentável”.

Na sequência da saga de ocorrências a me causar surpresas, no dia seguinte, ao sair do hotel para cumprir a agenda de compromissos, notei que o controle do split do meu apartamento deixou de funcionar. Chamei a camareira que estava de passagem, cumprindo a rotina diária: uma senhora em idade madura, com traços orientais e um sorriso amável que não desarma. Entreguei-lhe o controle remoto, explicando o ocorrido. Ali mesmo, no salão, abriu o aparelho, foi até o carrinho de suprimentos apanhar uma caixinha de ferramentas, testou as pilhas, mexeu nos circuitos, familiarizada com a ciência eletrônica, acenou com a cabeça a descoberta do defeito... e entregou-me o objeto, funcionando, normalmente, com um cumprimento de gueixa. Para ela, tudo muito simples.

E assim muitos outros acontecidos se sucederam. Talvez se trate de casos sem muita expressão, mas a delicadeza na disposição dessas singulares cidadãs, de, incontinenti, agirem desinteressadamente comigo - uma desconhecida - ou com qualquer compatriota, como testemunhei em muitas ocasiões, me surpreenderam. Para mim, que estava só, num país estranho, a empatia e a civilidade manifestada na curva dos gestos desses anjos de meia-idade me trouxeram a agradável sensação de estar com a minha gente, de estar em casa.

Essas damas na estação do outono, com os cabelos abrigando a cor da neve, mas com o vigor da juventude pulsando nas veias, dizem à vida, com o encanto de quem sabe ser grande por ser simples: que ser útil, é estar em evidência; que respeitar os iguais, veste a alma com elegância; que ser bem-sucedida, é exercitar as próprias aptidões; que  interagir com o próximo, nunca sai de moda; e que desprender-se da omissão, revela a verdadeira beleza da mulher de hoje. 

Deixam, nas entrelinhas dos seus rastros, a mensagem latente de que a consciência coletiva é música a fazer cama nos seus corações. Assim, pude confirmar, mais uma vez, que a mudança da postura para um efetivo crescimento pessoal, acontece de dentro pra fora, torna-se uma conquista, ganha o status de semente... a germinar em outras almas.
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CRÔNICA 13

6 comentários:

  1. Amiga, confesso que já estava ansiosa por não encontrar novas pérolas suas no blog.

    Você, tão sabiamente, enalteceu o espírito de colaboração e até de doação que observou nas doces vovós !
    Coincidentemente, no início desta semana, estávamos numa roda de amigas trocando algumas idéias sobre, justamente a carência de cortezias nos dias atuais. Nos perguntamos:- Qual mãe ensina isso hoje aos seus filhos? Qual escola? Qual amigo? Se uma vovó tentar fazer isso, imediatamente é enquadrada como careta. Socialmente isso está se acabando, como abrir uma porta de carro pra uma mulher, deixar que a mulher entre primeiro em qualquer ambiente, etc... O pior de tudo, é que se alguém o faz, há que se duvidar se não são simplesmente trejeitos afáveis para puro encantamento! Comentávamos que em breve esta geração de vovós se vai e não existirá a nova geração pra dar continuidade a essa pureza de doação. Não tem mais berço... faz tempo... Isso já aconteceu antes, minha amiga! Se encontrar um homem de chapéu, não se iluda que ele não o tirará para cumprimentá-la como nas gerações que se foram... Uma vizinha que fazia um bolo e se preocupava em levar um pedaço de presente pra sua casa... Ceder lugar a uma mulher numa condução (não é para um velhinho ou grávida não) mas para uma moça ou senhora... Olha, Regina! Voce me deixou tão feliz com o que escreveu, porque sinto que ainda tenho o privilégio de conviver com isso um pouco e com pessoas que tem o coração como o seu: jóia inestimável quemais brilha a cada dia que se passa! Obrigada pelo presente! Fico ainda mais feliz que tenho uma amiga que enxerga e vê com um coração tão doce! Beijos!

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  2. Bom, meus cumprimentos e parabéns por mais um maravilhoso conto. As lições que seus contos deixam, a meu ver, mantem a surpresa, o inesperado e o impacto. Nunca previsíveis, pelo contrário, surpreendentes. Todo sábado, quando postados, embarco no convite à leitura e viajo em puro deleite enriquecedor. Com este conto não poderia ser diferente. Mais bons exemplos a seguir quando eu chegar à maturidade. Só posso dizer obrigado e, mais uma vez, parabéns!!

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  3. A vida ensina a viver. Não se pode deixar de entender, que as belas senhoras portenhas, amáveis e educadas, moças, já o foram e, por certo, educação de berço tiveram, como assim tiveram as mulheres brasileiras.

    Mulheres brasileiras,
    sulistas, nortistas ou nordestinas,
    sofridas e educadas são,
    assim como as argentinas.

    Educadas de berço,
    aprendizes do cotidiano da vida,
    assim como as argentinas,
    são igualmente bem queridas.

    Mais uma vez, um belo conto,
    Mas, não só as argentinas,
    são anjos de meia idade,
    Pois, tu, querida Gina,
    de anjo, tens essa qualidade.

    P.

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  4. Nossa geração, tem a tendência de viver correndo. com frequência reclamamos da velocidade com que o tempo passa. Seu conto nos mostra a importância de diminuir o ritmo e finalmente entender o significado de um termo que ouvimos milhões de vezes: qualidade de vida.
    Parabéns, voce continua nos emocionando!

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  5. È verdade que uma gentileza anima e incentiva a continuar melhorando. E esses exemplos que foram citados no seu conto, merecem serem imitados. A beleza como descreveu nos levou a redescobrir o valor e o encanto de gestos de delicadeza e sensibilidade. Parabéns, suas palavras fazem bem à alma. Deus lhe ilumine.

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  6. Bem, esse conto vem a calhar direitinho com um tema que tem chamado bastante a minha atenção recentemente: solidariedade. Eu fui abençoado de ter tido por perto anjos de meia-idade e mais jovens também, mas nunca tinha me dado conta que eram anjos até que eu percebesse a vida em Manaus (não sei se em todo lugar é assim) era uma selva cruel com regras do tipo: 1) você é responsável pelo seu sucesso ou fracasso; 2) se alguma coisa deu errado é culpa sua por ter permitido que acontecesse ou por não ter se precavido; 3)as pessoas já tem problemas o bastante, portanto, resolva os seus próprios e não as sobrecarregue.

    Não acho que isso tá certo, mas foi o que eu aprendi com a minha pouca experiência de vida.

    Essas regrinhas foram bastante úteis no trabalho, na vida acadêmica, no dia a dia. Mas acabaram tendo um efeito muito RUIM: deixei de ser um anjo e deixe de andar com eles.

    Hoje, eu quero desenvolver meu senso de solidariedade, pq, em que pese a floresta exuberante que circunda Manaus, eu não vivo numa selva. Há pessoas, seres humanos, que precisam, tanto quanto eu (sinto muita falta disso), de atitudes humanas reveladoras de amor ao próximo.

    Quero dar e receber solidariedade. Quero ser um anjo (ainda não de meia idade, mas um dia se Deus quiser...) para os outros e que os outros também sejam para com os demais.

    É o meu desabafo.

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REGINAFalcão